COSTA, Marcus de Lontra. Onde está você, Geração 80? Rio de Janeiro: CCBB, 2004, pp. 14. FOTO: Escola de Artes Visuais do Parque do Lage durante a exposição Como vai você, Geração 80?, em julho de 1984. Ag. O GLOBO
COSTA, Marcus de Lontra. Onde está você, Geração 80? Rio de Janeiro: CCBB, 2004, pp. 14. FOTO: Escola de Artes Visuais do Parque do Lage durante a exposição Como vai você, Geração 80?, em julho de 1984. Ag. O GLOBO
Rio de Janeiro RJ - julho de 1984

Imagine 123 jovens artistas de diferentes tendências celebrando a vida e a vitória da democracia no Brasil nos anos 80. Sinta-se o principal convidado desta eterna festa da arte, cujo o principal mote é o fazer manual e prazeroso da pintura. Neste baile emotivo e de grandes proporções, os movimentos gestuais da pintura seduzem pelas constantes estonteantes sensações ruidosas e coloridas. Este é o espírito comemorativo da exposição Como vai Você, Geração 80? realizada em 1984, na Escola de Artes do Parque do Lage, no Rio de Janeiro.

Coincidindo com o pluralismo político que nascia no Brasil a partir do início da década de 80, jovens artistas representaram em suas obras o grito abafado da arte durante o período militar. Não suportavam mais a repressão à imaginação e à criação artística. A pintura, por sua vez, exerceria um papel importante neste momento. Ela promoveria o desejo de expressão e afirmação do sujeito, antes anulado pela ditadura.

Cientes da vontade artística que invadia o plano político, a coordenadoria, os professores e os alunos da Escola de Artes do Parque do Lage investiram em uma política educacional renovadora e experimental, cujo intuito era de transformar o ensino e a divulgação das artes plásticas no Brasil. Eles enxergavam a cultura como um meio de transformação social. Para tanto, deveriam reunir moradores da região e até mesmo a população da cidade do Rio de Janeiro, como se ali fosse um refúgio público para exercer o exercício da liberdade, ou seja, a própria arte. Contando com mobilização popular, a exposição expressou sua vontade de abertura, comunicação e aproximação entre os artistas e o público.

Interrogando continuamente a experimentação no ato de pintar em um fazer rudimentar incrementado pela tecnologia, esta geração de artistas refletiu sobre as relações que abarcavam imagens, suportes, técnicas, estilos, materiais, gestos, formas, cores, figuras etc. Rejeitaram a idéia de pintura como “a grande obra”. Destarte, através de tintas ordinárias e telas sem molduras, eles buscaram temas do cotidiano e se apropriaram de imagens e signos da comunicação, para subverter seus sentidos e lhes acrescentar elementos subjetivos e/ou irônicos. Inegavelmente, seus trabalhos desembocaram em um diálogo com a história da arte ao abusar de citações, híbridismos, diferentes suportes e materiais tridimensionais.

Um intenso intercâmbio de idéias e experiências conjuntas na escola geraram obras que indicavam a relação reflexiva e pessoal de cada aluno-artista. Neste sentido, as obras da Geração 80 se opuseram à arte conceitual. Sem serem herméticas, elas foram produzidas em um pensar e fazer mutuamente. Nesta descontração criativa, onde todos os alunos e professores se envolviam, os curadores da exposição Paulo Roberto Leal, Marcus Lontra e Sandra Mager consideraram que devido à integração das obras e a ocupação de todo o espaço da escola, a própria exposição era uma obra de arte.

Refletindo o caráter multicultural, Como está você, Geração 80? aconteceu no Rio, mas conta com participantes de São Paulo, mais precisamente da FAAP, bem como de Minas Gerais, provenientes da Escola Guinard e da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Decididamente, esta exposição marcou o período de produção artística brasileira dos anos 80. Entre os 123 artistas, nomes consagrados despontaram no mercado da arte como Beatriz Milhazes, Frida Baranek, Karen Lambrecht, Leonilson, Ângelo Venosa, Leda Catunda, Sérgio Romagnolo, Sérgio Niculitcheff, Daniel Senise, Barrão, Jorge Duarte, Victor Arruda, entre outros.

O tema clássico da história da pintura sugere a percepção do mundo através do olhar, no entanto, nesta exposição há comunicação direta e subjetiva com o espectador, bem como liberdade crítica das leituras das obras, ou seja, as obras pertencem ao seu próprio olhar e imaginação. Este é um processo tipicamente contemporâneo que provoca o olhar e impulsiona a integração entre arte e vida. A arte vive um momento de compromisso com as vivências pessoais da cada artista e cada espectador.

Definitivamente, a arte da Geração 80 rompeu as doutrinas acadêmicas dentro das artes plásticas e influenciou tanto nas raízes nacionais quanto no âmbito internacional. Sem abandonar a complexidade da arte contemporânea e de seu contexto galáctico, ela integrou o amálgama da cultura pós-moderna.

Luciana de Almeida Leite [bolsista]
Profa. Daisy V. M. Peccinini [coordenadora]