Rio de Janeiro - 1955

Um quadro é um evento no qual recuperamos e
imprimimos conteúdos aparentemente imemoriais

Daniel Senise *

Formado em engenharia civil na UFRJ em 1980, o artista Daniel Senise ganha notoriedade no campo artístico após participar da exposição Como vai você, Geração 80?, realizada em 1984, na Escola de Artes Visuais do Parque do Lage, em cuja Instituição ingressou como aluno em 1980 e foi posteriormente professor entre o período de 1986 a 1994. Participou também da integração do Ateliê da Lapa em 1984, juntamente com Ângelo Venosa (1954), João Magalhães (1945) e Luiz Pizarro (1958). Em 1985, sua carreira artística ganha destaque após expor, com outros artistas, na Grande Tela da 18ª Bienal Internacional de São Paulo. Seu trabalho já percorreu o mundo, tendo como destaques, exposições individuais no Museum of Contemporary Art of Chicago em 1991 e no Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey em 1994. Esteve presente nas coletivas nas XVIII, XX e XXIV Bienais de São Paulo, respectivamente em 1985, 1989 e 1998; na exibição Latin American Artists of the Twentieth Century, no Kunsthalle Cologne em 1988; no MoMA-Nova York em 1994; e na Mostra do Redescobrimento, na Fundação Bienal em 2000.

Anselm Kiefer e Markus Lüpertz, parecem ter estimulado o interesse de Senise pela pintura como meio expressivo, numa reação contra o conceitualismo da década de 70. O artista lida com a condição crítica da pintura, de como o olho funciona em relação às coisas mediadas pela pintura. Em toda sua carreira, tem se preocupado com os modos de percepção e construção de imagens. Durante uma busca de materiais expressivos e pintura como linguagem perceptiva, Senise parte de um imaginário pessoal que extrai do mundo de cultura de massas. Detentor de uma pluralidade estilística como pintor que realiza experiências no fazer pictórico, pensa na imagem fragmentada como instrumento de significação, identificação, recuperação e conhecimento do mundo complexo pós-moderno.

Sem ser planejada detalhadamente, a trajetória de descobertas experimentais do artista resulta em um prazer de pintar aliado sempre à reflexão sobre a poética pictórica. No início de carreira, sua produção se focava nos volumes e nos tema vazios das imagens indefinidas que eram retiradas de objetos do cotidiano. Ao final da década 80, suas telas adquirem cores intensas e variadas, enfocando paisagens imaginárias e descontínuas. Neste período, adota inúmeros artifícios que marcam a obra, como por exemplo, a utilização de ferrugem de pregos, de tecidos (voiles) e a realização da pintura no chão, incorporando sinais da rugosidade destes últimos elementos. Outro fator de grande influência no trabalho de Senise, bem como de toda a Geração 80, é a citação da história da arte, especialmente a de pinturas Renascentistas. Ele evoca o passado e a tradição da arte para compor arte contemporânea, citando obras através técnicas de colagens, apropriações e justaposições.

Portanto, as pinturas de Senise estabelecem uma relação com a história da arte, com o universo das imagens e com a percepção atual da sociedade. Elas abrem-se para uma ampla combinações de experiências. Destarte, sua poética atua como uma janela ilusória que ativa o imaginário do espectador. Certamente, é uma janela que ao menos provocará modificações em percepções individuais e proliferação de sensações.

* Depoimento de Daniel Senise, In: Daniel Senise - Pinturas. Niterói, Rio de Janeiro: Galeria de Arte da Universidade Federal Fluminense, 1993.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]



Sem Título , 1985