Luiz Paulo Baravelli - Belina a álcool, 1983
Luiz Paulo Baravelli - Belina a álcool, 1983
Luiz Paulo Baravelli - Belina a álcool, 1983

Nos anos 80 há um jogo do pós-moderno acentuando outros aspectos que dizem respeito a valores subjetivos. A pintura, que gira em torno do indivíduo consumista, hedonista e narcisista, é a encarregada de explorar as sensibilidades remanescentes da sociedade na era da globalização. Ela revela que as vanguardas não esgotaram a criatividade das formas tradicionais da arte.

No primeiro momento do Pós-Moderno, com raras exceções, os artistas repudiavam as linguagens tradicionais da arte (pintura e escultura) por serem corrompidas e dependentes do mercado de arte. Os antecedentes da crise da pintura remontam ao Dadaísmo e ao pensamento de Duchamp, ambos discriminavam a pintura por ela representar o “bom gosto” da burguesia. Suas idéias de repúdio à pintura se espalham pela década de 70, na qual a arte é expressa sob meios anartísticos como o carimbo, postais, vídeo, holografias, fax etc.

O retorno do prazer da pintura nos anos 80 rompe com os limites de recursos que caracterizava a década anterior. A pintura passa a ser concebida a partir de novos pressupostos: uso abusivo das cores, grandes formatos, uso de objetos do cotidiano adotados como suporte pictórico da obra, gestualidade, figurativismo e expressionismo. Jovens pintores transitam constantemente entre a tradição da história da arte e os fragmentos do mundo atual, realizando uma pintura híbrida e contínua.

A globalização como fenômeno da sociedade contemporânea e a desterritorialização da produção artística começam a se fortalecer na virada da década de 70 para 80. Esta nova fase artística recebeu várias denominações: Transvanguardia na Itália; Neo-Expressionismo na Alemanha, Holanda e Bélgica; e Pattern ou Bad-Paiting nos EUA. O manifesto da Transvanguardia de Achille Bonito Oliva traduz o espírito da retomada da pintura nos anos 80. Reconhece o processo de desterritorialidade da arte (movimento que opera além das fronteiras) como internacionalização das artes, o qual pode ampliar os limites do circuito da arte. Oliva quer subverter as regras e valores da vanguarda e cruzar contradições. Nesse sentido, o artista diante de um leque aberto de opções, incluindo recortes do passado, pode manter sua mentalidade nômade, transitória e sem tendências, ou seja, Oliva acredita que os fragmentos espalhados pelo mundo no qual vivemos são sinais de uma contínua mutação.

Enfim, a pintura renasce da desmaterialização dos anos 70 livre para a criação-citação (pintura híbrida); ironizar ao inverter significados padronizados; representar imagens desencaixadas; ultrapassar limites da moldura do quadro com grandes formatos e cores atrativas; escolher entre múltiplos materiais e técnicas; e optar por signos figurativos ou abstratos. Desde os anos 60 é difícil encontrar categorias ou grupos estáveis no campo artístico, mas essa característica se intensifica com a vitalidade gestual da pintura, preocupada em libertar-se de ditames, escolas, estilos ou relações consagradas na arte moderna. A intenção é aproximar a arte à cultura de massa.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]


Daniel Senise
Sem título
, 1985