Sem Título
, 1985

Óleo e cera s/ tela
175 X 220 cm
Col. MAC-USP

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Há algo espantoso no emaranhado de coisas deste quadro monocromático, sendo que esta condição é o que mais acentua as codificações da gestualidade de Miguez. O resultado de arrastar as tintas com pinceladas livres e brutas, faz-se quase indistinguível a passagem da cor preta para a marrom.

Com sua forma suspensa mas aderente à visão, o quadro é uma contradição em si. Sua estrutura é repleta de paradoxos dentro de uma ação constante de jogos do olhar. O quadro se afasta e se aproxima do espectador. Às vezes a pintura está dispersa, outras vezes concentrada. Ela pode ser discreta ou extravagante. E finalmente, heterogeneidade convive com homogeneidade. Em suma, o artista trabalha no limite das contradições, onde não existe perfeição. O resultado final da pintura é conseqüência da constante dúvida do ato de fazer pintura.

A pintura espera uma definição do público. Porém, existe o risco de perder todo o esforço do pensamento aplicado sobre o quadro. Há uma linha tênue entre o espectador e a harmonia desta pintura. Qualquer deslize imaginário diante da obra, é fatal para retomar o mínimo da sua compreensão.

Definitivamente, o olhar passageiro não é suficiente para atingir a pulsação desta pintura. A obra é móvel e sua vida depende do olhar exigente do público. Conclui-se que o quadro vive de forma humana porque os humanos nunca terão apreensão total da tela, bem como, não obterão um desfecho sobre a vida.

A última questão levantada pela obra já foi superada pelo seu autor. Fábio Miguez não se importa com a aparência da pintura. Será que o público também pode superar um aniquilamento da aparência agradável na pintura?

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]