COUTINHO, Wilson. A Princesinha das Artes da geração 80. , São Paulo, SP, VEJA em São Paulo, 17 de março de 1986.
COUTINHO, Wilson. A Princesinha das Artes da geração 80. , São Paulo, SP, VEJA em São Paulo, 17 de março de 1986.
COUTINHO, Wilson. A Princesinha das Artes da geração 80. , São Paulo, SP, VEJA em São Paulo, 17 de março de 1986.

São Paulo, 1961

Formada na Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP) em 1984, a artista Leda Catunda queria ser roqueira, sendo que se considerava pouco apta para desenhar. Seus professores de graduação - Júlio Plaza, Regina Silveira, Walter Zanini e outros - a introduziram no universo de arte conceitual, como bem se observa nas suas primeiras obras de litografia . Sua primeira aparição no circuito artístico deu-se por intermédio da então diretora do MAC-USP Aracy Amaral. Foi ela quem divulgou o trabalho dos jovens artistas estreantes Sergio Romagnolo, Ana Maria Tavares, Ciro Cozzolino, Sergio Niculitchef e Leda Catunda, na exposição Pintura como Meio, em 1983. Contudo, a artista ganha destaque nacional após participar da exposição na Geração 80, como vai você?, na Escola de Artes Visuais do Parque do Lage, em 1984. A partir desta exposição, ela conquistou o mercado e a crítica de arte, a ponto de se tornar uma celebridade estampada em capas de revistas e jornais. Além de pintora, artista multimídia e gravadora, Catunda lecionou na FAAP de 1986 a meados da década de 90. A artista apresenta um percurso que contabiliza três Bienais de São Paulo (1983, 1985 e 1994) e grandes mostras coletivas como Modernidade (Paris, 1987), Artistas Latinos-Americanos do Século 20 (Museu de Arte Moderna de Nova York, 1993) e Mostra do Redescobrimento (São Paulo, 2000). Fez doutorado em poéticas visuais na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, em 2001.

Catunda foi uma das artistas da Geração 80 que apoiou o ressurgimento da pintura em renovação às tendências conceituais de 70. Faz referências ao Pop, especialmente no uso de volumes estofados de Claes Olden, e de composições táteis e neoconcretistas de Lygia Pape. A artista investe na pintura como um meio ainda capaz de significar algo. Sua investigação no campo pictórico foca os limites entre a pintura e objeto. Ela chama atenção para textura e superfície dos materiais industrializados, tendo como acabamento o emprego de técnicas artesanais - como a costura - para adquirir originalidade, particularidade e identidade.

Durante os anos 80, há em seu trabalho um lado descritivo e caricatural exarcebado de imagens. Aplicando tinta sobre acessórios industrializados como lençóis, toalhas, cobertores, colchões e outros, a pintura de Catunda se torna objetual. Seu método implica em retirar imagens/objetos do cotidiano, eliminar alguns detalhes e acrescentar outros com certa dose de humor, para assim gerar novas e impactantes imagens originadas no universo do cotidiano da artista.

A partir da década de 90, prefere se ater a figuras geométricas e eliminar narrativas. Sua produção se apresenta mais limpa de cor, figuração e textura, bem como contém uma maior maleabilidade de materiais por meio de peças esvoaçantes e leves que fazem referência aos elementos da natureza como água, gotas, rios e insetos.

A produção de Catunda, portanto, critica a banalização das imagens em nossa sociedade, ao passo em que espera um estímulo provocativo no olhar do espectador. Além disso, seu trabalho desperta curiosidade e desejo de tocar nas obras para sentir as varias combinações de texturas utilizadas. A artista demonstra que a pintura busca inovar nas artes plásticas, à medida que, se revela um instrumento eficaz de indagação sobre a forma e sobre a percepção do mundo.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]



Onça Pintada nº1, 1984