A obra Cachoeira ganha vida na essência dos anos 80 dentro da construção visual da série Pintura-Desenho, que lhe rendeu o título de Doutora em Artes e foi exposta no Museu de Arte Contemporânea - USP, em 1987. Sobre sua pintura prevalece o concentualismo que é herança dos trabalhos das décadas anteriores. Formas geometrizadas, simetria, centralização compositiva se aliam à uma pincelada gestual e às curvas das formas.

Apesar de Carmela não pertencer ao grupo de pintores emergente nos anos 80, ela se envolve pela busca de novos meios de suporte para se expressar. Influenciada pela proposta do neoconcretismo de pensar o mundo junto com o fluir do corpo, a artista rompe com o espaço de representação na pintura. Na obra Cachoeira, 1985, o quadro não apresenta molduras, o que dá nova leitura ao unir a parede e o teto à obra. Há uma junção inesperada entre a superfície da obra e o universo, pois não existem limites entre obra, universo e espectador.

O choque do desenho e da pintura apresenta-se em 9 partes modulares e com motivos repetidos que estão distribuídos simetricamente. Apesar da composição da obra ser articulada parte por parte, os contornos das unidades se dissolvem quando fazem articulações entre si e o ambiente, formando uma dimensão espaço-temporal. O movimento de alternâncias de focos é possibilitado pelas fendas, elas permitem a saída do domínio central do quadro. O olhar pode ignorar os territórios demarcados ou atuar como ponto primordial da interpretação.

A obra gera múltiplas interpretações e configurações, mas todas elas dependem da dialética entre sujeito e obra, um interagindo sobre o outro. Construir um sentido é de inteira responsabilidade do observador. O leitor abismado com a obra ainda em andamento, tentará achar no seu processo mental algo familiar. O título ajuda o desvelar do enigma, porém, ao menor sinal de repouso mental, todo o processo mental adquirido se esvai. As ligações são frágeis e podem se desmanchar a qualquer momento, ao passo que a obra nasce de uma visualidade imaginária do real.

Cachoeira ultrapassa as coisas da vida. Dentro dela, o observador se vê em um mundo desconhecido, onde inúmeros caminhos partem da obra. Entretanto, quando o leitor evidencia o invisível no final do processo reflexivo, a obra se torna íntima ao leitor.

Ao convidar o sujeito a se introduzir na matéria, o papel da artista torna-se mediadora da condução de sensibilidade aos habitantes do mundo. A obra intensifica a mediação porque ela não se situa apenas no plano do objeto, ela penetra na realidade. A mensagem é a própria obra que será descoberta pelo leitor.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]


Cachoeira
, 1985

Acrílica s/ tela
160.0 X 160.0
Doação AAMAC

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