A arte de Flemming é estruturalmente baseada em três elementos: cor, forma e conteúdo. As cores são decisivas para compreensão do sentido pictórico de seu trabalho, pois ele não as limita, afim de obter suas confluências. Nesta obra, o artista cria situações onde a sedução das cores metálicas e ígneas convivem em tensão permanente. As contraposições e justaposições das cores revelam um choque e não a identificação nítida das figuras. O preto atravessa a pintura e nos choca, já o azul faz uma contraposição, nos indicando a tensão do quadro. A forma é o próprio obelisco num precário equilíbrio que significa símbolo da vaidade humana. Essas figuras estranhamente primitivas, se apresentam em forma de um mural porque o trabalho tem a intenção de realizar o papel de um grande “outdoor”, que tem impacto e dramaticidade, tanto da forma quanto da cor, atingindo um público involuntário.

O conteúdo revela os obeliscos como um monumento que exalta uma ação humana, entretanto, eles são tratados com ironia e crítica. A obra nos lembra a passagem fugaz e inquietações básicas da vida. A poética da obra marcada pela transitoriedade da vida, traduz que o ser é movimento virtual e espiritual, por isso, a dádiva da vida deve se aproveitada agora. Nada nos restará de herança para o além.

Este é o retrato da condição moderna na humanidade que vive em intensa massificação da mídia e em profunda solidão. Como todos os objetos são descartáveis, o que resta se abate sobre a cultura contemporânea, originando sujeitos com almas vazias e conflitantes. A proposta de Flemming, em meio a esse mundo de simulacros, é de resgatar um sentido de existência, materializando emoções e estados de espírito. Além disso, a obra de arte pictórica está disposta a narrar com o público. O autor tem plena consciência de que a partir do momento em que ele expõe sua obra, ela já não lhe pertence mais. A decifração do significado da obra deve partir de cada um, deste modo, é possível expressar sua individualidade e experiência perante a obra.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[
coordenadora MAC-USP]


Dragão, 1985


A queda dos obeliscos
, 1988

Acrílica s/ tela
270,5 x 210,0 cm

Ver obra ampliada