Entre 1984 a 1985, Alex Flemming mergulha em um universo de representações místicas. Parte de imagens de forte apelo popular em busca da longevidade espiritual humana, mesmo que esta se encontre sob a ação massante do tempo. Ao unir símbolos da cultura popular à religião ocidental (Dragão de São Jorge), o artista resgata esta imagem da desaparição do imaginário coletivo, ao mesmo tempo em que a informaliza e ironiza. Tal comportamento diante da obra de arte foi incorporado pela geração pós-moderna que se utiliza dos os meios técnicos mais variados de expressão (spray, lona, madeira e outros).

Dragão (1985), sua contínua busca de valores perenes se estende diante da figura instável do Dragão. As cores contrastantes não permitem a visualização nítida entre a figura e o fundo da tela. Analisando o esplendor visual, a riqueza cromática, o efeito tátil e alterações de volume e brilho da obra, induz que o fundo traga o dragão para seu interior e que a qualquer momento a figura pode esvanecer.

“O ser fantástico se dissolve em autodefinição, em conflitos e linguagens culturais e, ao se dissolver, torna-se coletivo” (BARBOSA, Ana Mae. Alex Flemming. São Paulo, SP. Edusp e Imprensa Oficial do Estado, 2002.). A obra é como se fosse os escombros da transitoriedade do ser humano e da cultura. Ela revela contrastes e sedimentações da sociedade, a qual busca persistência e materialidade das coisas, apesar de viver em meio a uma vida moderna desgastada pela massificação da mídia.

Enfim, é desconstruindo a arte convencional que o artista reflete sobre o sentido da nossa existência para talvez materializar emoções, missão a qual cabe somente a percepção do observador. Apesar da sociedade conviver entre ruínas angustiantes alimentadas por ela mesma mediante atitudes selvagens do cotidiano e culto ao corpo, prazer e beleza (fugacidades), ainda há possibilidades de restruturação interna partindo de uma política individual que atinge a social.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[
coordenadora MAC-USP]


A queda dos obeliscos


Dragão
, 1985

Cartolina, spray e acrílica s/
lona s/ aglomerado de madeira
192x150 cm

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