São Paulo, 1954

Como afirma Tereza de Arruda ao comentar a antologia da obra de Flemming ocurrida em 2001, no Centro Cultural do Banco do Brasil: “A vida há de ser celebrada, bem como a morte, pois ambas seguem lado a lado”. Este é o mote da criação de Flemming que sempre homenageia a vida, mas sem nunca esquecer que a morte é o germe da vida.

Filho de um aviador e de aeromoça, mesmo nascido em São Paulo, sua formação é universalista, pois passou a infância viajando pelo mundo, entre tais andanças morou na Flórida e em Lisboa. Formado em cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (1972-1974), Alex Flemming surgiu no meio artístico nos anos 70, no campo das gravuras sobre o cotidiano e contestação sócio-política.Até então, teve como influência os professores-artistas da FAAP Rodomildo Paiva, Regina Silveira e Júlio Plaza. Percebe-se, desde já, que o humano é a razão de ser da obra de Flemming. O artista dedica toda a sua pesquisa a conflitos sociais e paixões humanas. Iniciou intensa dedicação a pintura a partir de 1981, quando ganhou bolsa de estudos da Fundação Fullbright e cursou o Pratt Institute de Nova Iorque. Atuou como professor da Kunstakademie de Oslo, Noruega, entre 1993 e 1994. Expôs no Brasil e exterior, destacando-se nos XII (1980), XIV (1983), XV (1984) e XX (1989) Panoramas de Arte Atual Brasileira, no Museu de Arte Moderna, MAM/SP; e nas XVI (1981), XVII (1983) e XXI (1991) Bienais Internacionais de São Paulo. Atualmente, mora em Berlim, na Alemanha, mas viaja ao Brasil cerca de três vezes ao ano.

Desraizado de escolas, de movimentos e de formas, Flemming é um eterno andarilho. Rompe com o mito modernista da originalidade absoluta e da narrativa de progresso, por meio de desconstruções e reconstruções, afinal, o artista representa um corpo coletivo de culturas. Transita da pintura à fotografia, do objeto ao texto, assim como, a multiplicidade simbólica se apresenta na era moderna. Ele não se acanha em utilizar técnicas mistas e repetidas, dentro de um jogo de combinações infinitas, para assim, sempre produzir o diferente e criativo, ou seja, todas as suas obras se tornam únicas.

É evidente que o artista encara a pintura como um infindável exercício de paixão e obsessão, sendo que seus temas se relacionam à vida, ao corpo, à sexualidade, à morte e à espiritualidade. Também exalta o cotidiano com riqueza em ambigüidades e de forma desmitificadora da urbanização selvagem como em sua obra pública na Estação do Sumaré, que é composta de 22 imagens de retratos anônimos como carteiras de identidades ou como nos passaportes com 22 poemas que vão desde Anchieta até Haroldo de Campos, que formam 200 metros de identidade híbrida sob o olhar da multidão, que pode interpretar e interagir de forma diferente em cada viagem que realizar no Metrô.

Sua arte deseja negar a inércia profunda em que repousam todos os objetos e quer deter o fluxo do tempo para evitar a extinção da matéria, sempre contando com a participação do público. Considera que a arte vem da alma do artista, a partir da sua vivência, mas cada um está livre para decifrar, expressar sua individualidade e sua experiência perante à arte. Mesmo sem ideologia definida e com uma arte desterritorializada, por ser um cidadão do mundo, Flemming atinge a essência do homem para que a partir de mudanças subjetivas e pessoais, o indivíduo possa iniciar transformações para renovar qualitativamente a sociedade.

Luciana de A. Leite
[bolsista IC - FAPESP]
Daisy V. M. Peccinini
[coordenadora MAC-USP]


Dragão, 1985

A queda dos obeliscos