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A obra de Ione
Saldanha que faz parte do Acervo de MAC-USP, é de sua fase pintura-objeto.
Na verdade, esta obra pode ser considerada uma Instalação, próxima
a um “objeto expandido”, onde o todo só existe na relação
intrínseca entre as partes.
Este trabalho representa claramente a necessidade da artista de não
abandonar o ambiente pictórico. O suporte diferenciado não elimina
em absoluto a intenção cromática e o pulsar que a mesma
provoca. É através das cores que temos as raízes populares
e uma sensualidade contida e primitiva ao mesmo tempo, tão característica
nos trabalhos de Ione.
Instalação feita como que
de um fragmento de tela, o trabalho da artista, nos leva à infância
e a magia singela que a mesma representa; sem abandonar no entanto questões
claras de origem individual e coletiva e a própria sensualidade que
faz parte da dança da vida.
Luciana Bosco e Silva
[colaboradora]
Daisy Peccinini [coodenadora]
Nascida em Alegrete, no
Rio Grande do Sul, em 1919, Ione Saldanha já na infância
passa a interessar-se por artes. Seu interesse se dá ao ver em uma
revista a imagem de uma pintura de Matisse. Nesse momento, ela decide que
vai ser artista e passa a sonhar com sua mudança para o Rio de Janeiro,
capital das artes no Brasil, nesse período.
A mudança para o Rio de Janeiro se dá na década de 1940,
em 1948 passa a estudar no ateliê de Pedro Corrêa de Araújo,
onde realiza seus primeiros trabalhos. Nesse mesmo ano participa do Salão
Nacional de Belas Artes / Divisão Moderna, ganhando uma medalha de
bronze por seu trabalho.
Em 1951 viaja para a Europa, lá fica por cinco anos. Primeiro em Paris,
onde estuda a técnica de afresco na Academia Julian e posteriormente
em Florença, onde também estuda a mesma técnica. Além
do período de estudo, esse foi um período de grandes descobertas
nos museus da Europa, onde se depara por fim com obras de seu inspirador primeiro,
Henri Matisse.
Ainda morando na Europa, participa da Bienal Internacional de São Paulo
em 1953 e do Salão Nacional de Arte Moderna no Rio de Janeiro, onde
ganha o Prêmio Aquisição em 1954. Neste mesmo ano participa
do Salão Preto e Branco do 3o. Salão Nacional de Arte Moderna,
no Rio de Janeiro.
De volta ao Brasil em 1956, Ione expõe em uma Individual no MAM de
São Paulo e na Petit Galerie no Rio de Janeiro. Em 1957 participa da
Mostra “Itinerante Arte Moderna no Brasil” em Buenos Aires e Rosário,
na Argentina. Em 1959 faz uma exposição individual no MAM do
Rio de Janeiro. Ainda neste ano participa de uma coletiva de artistas brasileiros
em Munique, Viena, Utrecht e Amsterdã, Lisboa e Paris, com a Mostra
“Arte Brasileira”. Faz parte da mesma exposição
novamente em 1960.
De 1961 a 1964 faz várias exposições individuais em Santiago
no Chile (1961), Rio de Janeiro (1962), Berna (1964) e Roma (1964).
A partir de 1968 a artista passa a utilizar suportes diversos em seus trabalhos,
tais como ripas e bambus, bobinas de madeira para cabos elétricos,
entre outros. A mudança de suporte dá uma grande liberdade de
expressão à artista que passa a criar não mais pinturas,
mas sim objetos pictóricos e conjuntos de objetos até chegar
às Instalações.
O interesse que até o momento era por cores e formas, ultrapassa o
dimensional e se projeta em ambientes, instalando objetos que lembram ritos
e festejos primitivos e populares, onde a tridimensionalidade de sua pintura
ganha um “pulsar” através dos novos suportes.
Sua “brasilidade” é inegável, principalmente quando
alcança o tridimensional, é através dessa nova poética
que a artista expressa suas origens e a origem de seu povo de forma vibrante
e colorida.
Sua obra nesse momento é dotada de uma espiritualidade singela, manifestada
a partir de ritos primitivos, com imagens geométricas tribais e apesar
de sutil cheia de sensualidade em sua origem.
Suas últimas obras datam de 2000, quando a artista já lutava
contra um câncer que lhe tirou a vida em 2001. Ela viveu até
o fim de sua vida no Rio de Janeiro, cidade que escolheu e amou, até
seu último suspiro.
Luciana Bosco e Silva
[colaboradora]
Daisy Peccinini [coordenadora]