A década de 70 se caracteriza pela expansão da arte conceitual, isto é, da arte como idéia, através de meios anartísticos, operando com o corpo em performances, com novos meios tecnológicos, Multimeios e uma outra modalidade espacial e fragmentada de trabalho - Instalação. Há a aplicação de novas tecnologias que se associam à operação conceitual do artista, como arte e computador. Ocorre nessa época a revitalização do pensamento de Marcel Duchamp condenando a pintura, que para ele se situava muito aquém das possibilidades criativas do ser humano. Para ele a arte é um gesto resultante de um pensar, os artistas não são fazedores de arte, mas criadores-operadores de idéias nas quais contrapõem os ready-mades como crítica desta arte mimètica da realidade dos sentidos. Duchamp condena a pintura desde o impressionismo até o abstracionismo e a arte pop, afirmando que a arte foi reduzida à matéria, cor, desenho, textura e sensibilidade; portanto, “a idéia foi reduzida ao tubo de tinta e a contemplação à sensação”. Em 1957, ante a expansão da pintura abstrata, ele escreve que “(...) hoje a pintura se vulgarizou a mais não poder(...).” Estas definições podem explicar, em parte, a recusa à pintura por parte da nova geração de artistas, a rarefação de sensações e emoções em suas obras, e a aplicação de quaisquer outros meios, que não os artísticos convencionais, mas anartísticos: ready mades, carimbos, arte postal , off-set, xerox, meios tecnológicos na elaboração dos trabalhos, que são de ordem fragmentária e hermética, cabendo ao público dar os significados.

Como vertente idealista, a arte conceitual gera “aparelhos de significados”, como Duchamp definira anteriormente os ready mades. Conseqüentemente, a materialidade da produção da arte conceitual é mínima, servindo como suporte para as proposições de idéias fomentadoras de reflexões por parte do público e de movimentações mentais lógico-perceptivas, isentas de emoções, sensações ou sensualidade. Essa arte incitava a movimentação de idéias dentro do raciocínio lógico, segundo Harold Rosenberg envolve “o repúdio à estética” e “eliminação total do objeto de arte” . Neste contexto , a arte da pintura, nos 70, passou pela maior crise de sua história, quer no plano nacional como internacional. Sua morte foi proclamada por vários artistas conceituais, que diziam que jamais suas mãos haviam tocado em um pincel, como Sol Lewitt e Ed. Rusha.

Com estas características a arte conceitual contava com a vantagem da sedução por possibilitar outras visualidades, percepções e reflexões ilimitadas, potencializadas pelos recursos tecnológicos das mídias.
No Brasil, a conjuntura política repressiva que se instalara desde o final dos 60 e no decorrer dos 70 desarticulou os grupos de artistas, que foram expulsos dos cenários dos salões, bienais, e galerias. Na verdade, o início da década é de calmaria, ou de um “estado de espera”, como denomina Aracy Amaral, e de perda da velocidade dos ismos. Há a substituição da agitação pelas atividades de reflexão. Em 1968, Mário Pedrosa examinava a situação com ceticismo. Para ele, não existem mais vanguardas.
Nestes anos 70, as características são a reflexão, a razão e a substituição da vida pela arte. Uma arte que é sobretudo idéia e que se relaciona com o público de forma bem diferente, em comparação com a arte da década anterior. Esta participação é de ordem conceitual ou mental, que se realiza mediante as proposições dos artistas para os espectadores. É o período onde aparecem vários trabalhos em Instalação, situações arquitetadas no espaço, como os ambientes, locais, por excelência, do jogo conceitual ou mental das idéias do universo criador do artista. Uma materialização fragmentada e experimental de propostas conceituais, o visitante olha e pensa.

No Brasil, surgem vários grupos envolvidos com arte conceitual ou sobretudo arte como processo experimental, dirigida por conceitos. Como tais, estes grupos não se constituem como escolas de formação, mas como centros de artesanato conceitual, como escreve Frederico Morais em relação à Escola Brasil, em São Paulo, em 1970. De fato, este agrupamento paulista, e os que surgem mais tarde, como o grupo do On-Off, também em São Paulo, o espaço N.O (Nervo Óptico), em Porto Alegre, em 1976, e o Núcleo de Arte Contemporânea, em João Pessoa, em 1978, não atuam como escolas de Arte, mas como locais de exposição e discussão sobre a arte atual. A ênfase da produção desta arte como idéia, passa a ser dada mediante outras estratégias e linguagens que as até então conhecidas e acontecidas: performances e instalações e artes de recursos tecnológicos, que utilizam mídias que vão sendo substituídas por outras tecnologicamente mais avançadas: assim do Super 8 à videoarte; ao vídeotexto. Nessa arte de novas tecnologias, assinala-se primeira exposição internacional de arte eônica, ou arte e computador, organizada por Waldemar Cordeiro, em São Paulo, em 1971. Um marco entre os eventos de arte e tecnologia, da década. No Brasil, como no Leste europeu e América latina, a arte conceitual se desenvolve com clara intenção política. As naturezas dos meios anartísticos e a possibilidade de fácil reprodutibilidade e a sua rede quase clandestina de distribuição permitiram em nosso país a expressão de uma arte fortemente crítica ao regime militar, o que não seria possível com os meios convencionais da pintura e da escultura. Muitas vezes essas expressões críticas se resguardavam na precariedade dos suportes, na sua grande capacidade de reprodução, como o off-set e o xerox; na instabilidade de meios eletrônicos de imagens não analógicas codificadas em sinais e sempre reproduzíveis, como vídeos; ou propostas conceituais mergulhadas na rede internacional de milhares de usuários do sistema mundial de correios, no caso da arte postal. Neste sentido a arte conceitual é altamente envolvida com o ideal de humanismo potencializador das percepções do ser humano, como defensora da liberdade de pensar, refletir e operar no campo da arte, visionária de um universalismo planetário.

Daisy Peccinini [coordenadora]