Registro do início de sua produção artítista conhecida como‘fase negra’, na qual multidões negras, de indivíduos anônimos, cobriam todo, ou quase todo, o espaço da tela e/ou do papel; “É proibido dobrar a esquerda”, particularmente, parece denunciar, em entremeio a crítica da massificação do ser humano na dinâmica própria da sociedade capitalista contemporânea, a atmosfera de ‘caça as bruxas’ que se instaurou no país, logo após o golpe militar de 1964.

Posto que a mensagem escrita que se encontra localizada no canto superior esquerdo do papel - é proibido dobrar a esquerda - não apenas serve para identificar à obra ao seu título respectivo, senão para estabelecer um diálogo entre fatos e imagens: como uma espécie de texto-legenda, da maneira mesma como se dá na linguagem jornalística. No entanto, em uma espécie de descompasso semântico, a seta, se interpretada como um signo de trânsito, nos indica exatamente o contrário: de que não apenas é permitido dobrar à esquerda, senão de que é justamente nesta direção - à esquerda - que esta multidão de indivíduos anônimos se dirige.

Além disso, os traços ligeiros, de caráter expressionista, levemente gestual, também nos sugerem uma atmosfera de tensão e nervosismo; de uma aglomeração humana pretensamente contida pelos frágeis limites de uma situação autoritária.

É proibido dobrar à esquerda, 1965
Guache s/ papel, 54.1 x 74.4 cm
Prêmio Aquisição II Jovem Desenho Nacional