Auto-retrato, 1947. In: Folder da exposição "Geraldo de Barros - Precursor", Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1996. Contracapa.


Auto-retrato, 1949. São Paulo, Brasil. In: Catálogo da exposição "Geraldo de Barros - Precursor", Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1996. p.11

Geraldo de Barros no ateliê, 1947. Grupo Ruptura. São Paulo, Cosac & Naify, 2002. p. 20

GERALDO DE BARROS
1923 - Xavantes, SP
1998 - São Paulo, SP

Entre 1945 e 1998, período em que se dedicou, ininterruptamente, as artes, Geraldo de Barros foi muito mais do que uma figura constante e presente na ‘tropa de frente’ dos movimentos artísticos paulistas. Sempre além de ser apenas mais um espírito moderno, foi sobretudo um artista completo e multifacetado, com uma incrível capacidade de aglutinar em torno de si personalidades, assim como a sua: surpreendentes.

Recém-formado em economia e trabalhando como bancário, em 1945, Geraldo de Barros decide-se a estudar pintura. Foi primeiramente aluno de Clóvis Graciano, depois de Colette Pujol; mas, devido aos seus limitados recursos financeiros, torna-se sócio da Associação Paulista de Belas Artes. Pois embora fosse uma escola de artes conservadora e acadêmica, era a opção mais econômica para se estudar desenho com modelos vivos. Aliás, estas contingências financeiras, compartilhadas por muitos artistas iniciantes, fora um fator decisivo para a formação de cenáculos e agremiações, tão característica nas décadas de 30 e 40, como ao surgimento do Grupo dos 15, em 1947. Poucos meses depois de ingressar na APBA, Geraldo e Athayde de Barros, de quem torna-se amigo devido ao interesse de ambos em experimentar outras técnicas e estilos, que não apenas as ensinadas na escola, passaram a frequentar, como alunos, o ateliê de Yoshiya Takaoka, que era, sobretudo, freqüentado por jovens pintores de sua comunidade nipo-brasileira. E é, justamente, desta convivência e desta vontade de se dedicar à pintura e ao desenho, além da necessidade de dividir as despesas, que, poucos meses depois, este agrupamento de moços - se nem todos de idade, ao menos de espírito - alugam a sala nº 10 na rua XI de Agosto, nº 224.

Em 1949, pertencente à 1a geração fruidora do recém-criado MASP, frequenta a sua Escola Livre de Artes Plásticas, ao longo dos meses de sua efêmera duração; sendo, logo depois, a convite de Pietro Bardi, o responsável pela criação do laboratório de fotografia do museu, devido às experiências, que já vinha realizando há algum tempo, com fotografia. Este seu trabalho inovador para época, exposto ao público em 1950 sob o nome de 'Fotoformas', e que consistia em retrabalhar, a partir dos próprios negativos, áreas de sombras e de luz, com intenções pictóricas abstratas, rendeu-lhe uma bolsa de estudos do governo francês na Europa. Em Paris, estuda gravura com Stanley Hayter e litografia na Escola de Belas Artes e, em Ulm, cidade onde se localiza a famosa Escola Superior de Desenho Industrial, conhece Max Bill, artista concretista que lhe havia causado grande impressão quando de sua visita ao Brasil no ano anterior, e de quem se torna, então, um grande amigo.

Em 1951, de volta ao Brasil, recebe o prêmio de aquisição de gravura na I Bienal de São Paulo. No ano seguinte, ao passo em que assinava, ao lado de Waldemar Cordeiro, Sacilotto, Lothar Charoux, e outros, o Manifesto do Grupo Ruptura - marco do surgimento do movimento concreto paulista; recebia o primeiro prêmio de cartaz do IV Centenário de São Paulo. Em 1953, além de responsável pela sala de fotografia na II Bienal, recebe novamente o prêmio de aquisição de gravura, além do primeiro prêmio de cartaz do I Festival Internacional de Cinema. Em 1956, participa da Exposição Nacional de Arte Concreta, e recebe o prêmio de aquisição da XXVII Bienal de Veneza.

E se a década de 1950, fora sem dúvidas, um período não só de amadurecimento de sua obra, senão de reconhecimento, internacional e nacional; na que se seguiu, este grande expoente do concretismo paulista, mas, sobretudo, um vanguardista, passou a se dedicar a uma arte de maior apelo à comunicação visual: palavra-chave dos anos 60. Em 1966, fundou, ao lado de Nelson Leirner e Wesley Duke Lee, o ruidoso e efêmero Grupo Rex, que caracterizou-se, além de seu caráter contestatório, por sua intencionalidade de se comunicar com o público, segundo maneiras mais imediatas, e menos convencionais.

Poderíamos dizer que, em um movimento ‘conciliatório’ parecido ao de seu colega concretista, Waldemar Cordeiro, de um retorno a figuração com incidência da perspectiva pop sem, no entanto, deixar de se utilizar da experiência anterior quanto a composição do espaço. No entanto, diferentemente de Cordeiro que preferiu trabalhar com objetos, Geraldo, valendo-se de sua experiência anterior na arte de cartazes, passou a realizar, sobretudo, trabalhos de pintura e colagem, a partir de anúncios ou cartazes publicitários, na tentativa de subverter a mensagem, na medida em que esta ultrapassasse sua intenção original, de dirigir-se a uma massa consumidora e anônima.

Nos anos 80, retomando sua experiência anterior na fabricação de móveis, como criador e fundador da fábrica Unilabor e da loja Hobjeto, volta a fabricar objetos, sobretudo, de fórmica, com design arrojado e, principalmente, passíveis de serem infinitamente reproduzíveis. Profundamente influenciado por Mário Pedrosa, e paralelamente ao trabalho de Nelson Leirner, seu companheiro no Grupo Rex, Geraldo procurou questionar, ao longo de sua trajetória artística, o valor, ou mito, da obra de arte como una e única; pois acreditava que somente a reprodução desta em escala industrial o eliminaria: a esta aura de unicidade.

Ana Claudia Salvato Pelegrini
(bolsista PIBIC/CNPq)
Daisy Peccinini
(coordenadora do projeto)