![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
O
cenário artístico-cultural da década de 1960 foi marcado
pela percepção contemporânea de seus protagonistas quanto
à emergência de uma nova arte. Nova, não somente porque
operava uma meia-volta em relação às tendências
então hegemônicas no panorama internacional (abstracionismos
lírico, informal, expressionista; tachismo, pintura gestual, action-painting),
senão porque também propunha um novo realismo nas artes.
No Brasil, em virtude da conjuntura histórica particular do país,
esta idéia do novo, aliada a um espírito coletivo de seus protagonistas,
fez-se recorrente em quase todos os movimentos culturais então emergentes:
Bossa Nova, Cinema Novo, Teatro Novo, Arquitetura Nova.
Nas artes plásticas, foi a partir da realização da coletiva
Opinião 65 que uma série de eventos e manifestações
culturais coletivas se sucederam, sendo a um só tempo vitrine e fórum
de discussão desta nova arte então emergente.
Idealizada pelo marchand, proprietário da Galeria Relevo no Rio de
Janeiro, Jean Boghici, e organizada pela crítica de arte, residente
em Paris, Ceres Franco, a coletiva Opinião 65 inspirava-se
no entusiasmo geral que o show organizado pelo Teatro Arena do Rio de Janeiro
despertara: justamente por ser a primeira manifestação cultural
organizada após e contra o golpe militar de 1964. A coletiva Opinião
65 inclusive tomara seu nome de empréstimo desse show, estrelado
por Nara Leão (depois substituída pela então estreante
Maria Bethânia), João do Vale e Zé Ketti, e cuja canção-tema
dizia:
“Podem me prender /
podem me bater /
podem até deixar-me sem comer /
que eu não mudo de opinião.”
No
caso da coletiva Opinião 65, seus organizadores tinham
como objetivos específicos apresentar e analisar a produção
artística dos jovens artistas brasileiros, a ao contrastar seus trabalhos
com as obras de outros jovens artistas da Escola de Paris, ressaltar a atualidade
e o vigor criativo desta jovem geração de artistas plásticos.
De todo modo, o título tomado de empréstimo do show não
poderia ser mais pertinente. O crítico de arte Ferreira Gullar, por
exemplo, escrevendo à luz e acerca desta coletiva, marco das discussões
em torno de um novo realismo nas artes plásticas, observava que: “Algo
de novo se passa no domínio das artes plásticas, e esse caráter
novo se pronuncia no próprio título da mostra: os pintores voltaram
a opinar! Isso é fundamental!”.
Realizada entre 12 de agosto e 12 de setembro de 1965 no Museu de Arte Moderna
do Rio de Janeiro, a abertura de “Opinião 65” ficaria para
sempre marcada pela apresentação dos “Parangolés”
de Hélio Oiticica. Expulso do recinto do museu, uma vez que a performance
fora então considerada perigosa às obras em exposição,
Oiticica acompanhado de alguns membros da escola de samba ‘Estação
Primeira de Mangueira’ fora obrigado a dar continuidade a sua performance
nos jardins da instituição – “sem movimento não
há parangolés”, diria o artista, alguns anos mais tarde,
ao ver seus parangolés pendurados na sala de um museu.
Em São Paulo, este clima de entusiasmo e discussões acerca deste
novo realismo nas artes também se refletiu. Os paulistas deram seqüência
à discussão de questões então levantadas, e em
especial acerca do caráter e da função da vanguarda brasileira,
em “Propostas 65”, realizada na FAAP, em dezembro do mesmo ano,
1965.
“Opinião 65” portanto, não fora apenas um marco
de ruptura: “ruptura com a arte do passado e com uma estética
cômoda, em referência à pintura abstrata”, como escrevera
Ceres Franco no catálogo da mostra.
“Opinião 65” representa o marco de um novo ciclo que se
abria no cenário artístico-cultural do país: de intensos
e apaixonados debates, atividades, performances, exposições
coletivas.
Ana
Claudia Salvato Pelegrini [bolsista]
Profa. Daisy V. M. Peccinini [coordenadora]






