São Paulo - SP, 1944

Um dos artistas brasileiros que mais se aproximou da esfera de influência da arte pop norte-americana, Cláudio Tozzi nunca negou seu profundo interesse pela obra do americano Roy Lichtenstein, nem tampouco a influência da linguagem pictórica deste na construção de sua própria linguagem. Sua grande contribuição para a arte brasileira, no entanto, fora transpor, de maneira pessoal e intransferível, este novo universo de técnicas, meios e suportes, fundado sobretudo na apropriação de imagens e estereótipos veiculados no mass media, para um tempo e espaço específicos: o Brasil nos anos 60.

Nestes anos de (in)tensos debates e agitações políticas, Tozzi, então um jovem estudante de arquitetura da FAU-USP, mas político e socialmente envolvido com sua época, dedicou-se ao trabalho - como o de um cronista quase - de realizar um levantamento iconográfico de tudo o que acontecia ao seu entorno: desde a situação política do país que era a ditadura, logo à toda opressão e repressão que envolviam a morte de estudantes e/ou opositores do regime; aos protestos contra a Guerra do Vietnã; a morte de Che Guevara; a posição do Brasil como terceiro mundo; ou a chegada do Homem à Lua.

Devido ao acirramento da censura e da repressão no país pós-68, Tozzi - que chegou a ser detido por uma semana pela Operração Bandeirantes - passa a se dedicar a um outro tipo de denúncia: questionando o próprio status da obra de arte como única e elitizada, alheia aos novos meios de linguagem e fatura publicitárias, inicia uma série de trabalhos de multiplicação e alteração de imagens, a partir de técnicas derivadas da reprodução gráfica. Incursionando também pela abstração, ao longo da década de 1970, dedica-se a uma pesquisa mais formal e sistemática dos pigmentos: seus meios de expressão e os processos perceptivos que desencadeiam na retícula humana.

Artista que se caracterizou no entanto por uma busca constante de novos resultados, em um contínuo processo de experimentação, sua produção dos anos 1980, revela-se então mais preocupada com a exploração dos problemas do espaço. E é como fruto destas pesquisas e experimentações realizadas ao longo destas duas décadas que vemos emergir um dos traços que mais caracterizaria sua produção desde então, a chamada técnica do‘pontilhismo’ reticular; posto que a substituição dos pincéis por um rolo de borracha reticulado proporciona ao espectador a visualização, a olho nu, de uma infinidade de ‘pontinhos’e/ou retículas.

Tendo alcançado o reconhecimento merecido, ainda jovem - foi considerado pela crítica como um dos dez melhores pintores da década, no concurso ‘Destaque Hilton’ de 1980 - Tozzi é ainda hoje considerado um dos mais expressivos artistas do cenário artístico nacional. Não apenas pelo exímio conhecimento e domínio do métier artístico, senão pela notável coerência formal que revela na diversidade temática do conjunto de sua obra. Voltando-se ora para composições mais geométricas, construtivistas, ora para questões referentes à comunicação direta da imagem, Cláudio Tozzi revela-se sobretudo um arquiteto construtor de imagens. E, para muitos, um marco divisório da arte contemporânea no país.

Ana Claudia Salvato Pelegrini
[bolsista CNPq/PIBIC]
Profa. Dra. Daisy Peccinini de Alvarado
[orientadora MAC-USP]


Cláudio Tozzi


A subida do foguete, 1969
ver análise