A geração de artistas que emerge entre os anos 1968-1970, à qual pertence Sonia von Brusky, é aquela que se contrapõe aos golpes radicais do endurecimento do governo militar, à perda da liberdade, às perseguições e torturas e aos desaparecimentos de pessoas. É participante das agitadas manifestações de protesto, passeatas contra a censura e a favor da cultura que invadem as ruas do Rio de Janeiro, enfrentando a violência das repressões, a morte, as agressões físicas e sevícias junto às multidões, nos momentos de maior resistência civil na história do país. Por outro lado, a atuação dos artistas e intelectuais adquire outras características. A oposição se radicaliza, não mais em manifestações, porém em diretas e vivas ações, uma militância política que se materializa em atos de expressão corporal, visual ou gráfica, musical ou oral. São exemplos os discursos relâmpagos de intelectuais e artistas, de crítica à censura; como o de Mário Pedrosa diante do corpo de um estudante vitimado pela repressão; ou ainda, o enfrentamento dos carros de combate, de dispersão das manifestações, como o da atriz Vanja Orico; ou ainda, o boicote dos artistas brasileiros à X Bienal de São Paulo, do qual participa Sonia Von Brusky, em consonância ao boicote internacional.

Neste contexto, a arte insere-se nas alternativas possíveis de ação combativa, dentro da trama cultura urbana. Os jovens artistas intervêm na realidade sombria, do aqui e agora, nos espaços da cidade, e as estratégias da guerrilha urbana se integram no processo da arte. No caso de Sonia, seu pensamento e poética caminham lado a lado. Os objetos políticos são metáforas de liberdade e de denúncia. O papel do artista é o de ser “revolucionário e conseqüente” e a sua arte de resistência, agressiva, de militância política na produção cultural. Os novos direcionamentos da arte se deflagram em exposições e salões, que surgem naquele momento, como o I e II Salão da Bússola, ou o I e II Salão de Verão, palcos de confrontos, protestos, entre críticos de arte, artistas e a censura oficial. É conseqüente o combate político que se desencadeia, não só propondo uma visão crítica da situação do país, mas também da arte e cultura. A poética da anti-arte se concretiza de forma contrária ao que é convencionado como obra artística, colocando em xeque o status da arte e da crítica de arte. Os objetos de Sonia com suas inquietações e denúncias desafiam e estabelecem o confronto com a conjuntura que se instaura, a dos tristes anos de chumbo, com que se encerra a década de 1960 e demarcam-se os anos 70.

Daisy Peccinini [coordenadora do projeto]

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