Referência: CABRAL, Isabella; REZENDE, M. A. Amaral. Hermelindo Fiaminghi. São Paulo: Edusp, 1998. p. 42

Nasc.: São Paulo, SP, 1920

o velho fiama
com suas mãos litógrafas
resplandece
na aura dos cabelos brancos
bochechas de ítalo rubor
grossos bigodes fiados em prata
olhos sábios - de maturada sabedoria Volpi
(...)
geômetra
amoroso da reta
e da curva
precisas
das retículas sutis
que se entre-reticulam
como texturas movediças
(o violeta entrando pelo verde
pervasivo
insinuante
feito um véu que se desvela outro
véu)

Poema escrito por Décio Pignatari para seu amigo artista (Fiaminghi ou Concreção Sensória, 1998)

“Eu comecei, em 1935, com quinze anos, como aprendiz de litógrafo na Editora Melhoramentos”, contou o artista (site Telescópio.inf.br.). Entre 1936 e 1941, estudou no Liceu de Artes e Ofícios, onde conheceu Lothar Charoux, e foi aluno de Waldemar da Costa, freqüentando seu ateliê, e pintando paisagens. Além de realizar suas pinturas, Hermelindo Fiaminghi desde 1946 trabalhou em indústrias gráficas, e como diretor de arte em agências de publicidade. Esta experiência o levou a realizar a programação visual dos textos dos poetas concretos paulistas, em 1955/56. Fez um cartaz para a Escola Superior de Propaganda do MASP (hoje Escola Superior de Propaganda e Marketing), em 1950, época em que começou a freqüentar os recentes museus (MASP e MAM-SP) e a se interessar por arte moderna. Conheceu Leopoldo Haar, que lhe apresentou a arte concreta. Sua obra passou então por uma limpeza de cor, e construções geométricas.

Participou da Bienal de 1955, quando conheceu Luiz Sacilotto, que o convidou a participar das reuniões do Grupo Ruptura. Com o grupo, expôs na I Exposição Nacional de Arte Concreta (MAM-SP, 1956; MAM-RJ, 1957), e na mostra Konkrete Kunst (Zurique, 1960). “Nós criávamos o futuro das artes plásticas. Sacilotto, Waldemar Cordeiro, Charoux, o Wollner, Maurício Nogueira Lima, eu Fiaminghi. Nós fizemos a nossa História. (...) Ninguém pode contar esta história, sem citar a história do Concretismo. (...) Quando eu estava na fase concreta, o que eu procurava era fugir de uma temática que se pudesse fazer uma estória em cima dela. Eu eliminei a estória com a pintura concreta. A estória é ela mesma, ela própria, a pintura, ela está lá, está viva. O quadro perpetua aquilo que sua cabeça pensou. Eu não faço quadros, eu penso o quadro.” (Telescópio.inf.br.)

Em 1959, desligou-se do Grupo Ruptura. Passou a desenvolver um trabalho de pesquisa da cor-luz, sendo considerado o precursor da utilização da retícula gráfica nas artes plásticas. Esta experiência foi influenciada por seus conhecimentos em litografia, e por conversas com Alfredo Volpi, que Fiaminghi havia conhecido na década de 50. Em 1963, reuniu-se novamente com os artistas concretos na fundação da Galeria Novas Tendências. Em 1969, criou e dirigiu o Ateliê Livre de São José dos Campos. Podemos ver a influência que a arte concreta deixou em sua obra neste depoimento de 1975, em palestra no Instituto de Estudos Brasileiros da USP: “as obras concretas têm em comum a cor e a forma como funções principais e não os estímulos delas decorrentes. (...) O movimento pela cor e pela forma, a composição de elementos múltiplos e seriados, a linha delimitando espaços virtuais, o campo visual do quadro predeterminado, a intermitência pela cor-luz: são algumas temáticas da linguagem concreta abordadas pelos pintores e escultores concretistas em suas obras”.

Tatiana Rysevas Guerra
[bolsista]
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
[coordenadora do projeto]