HÉRCULES BARSOTTI
São Paulo, SP, 1914


“Um trabalho como o de Barsotti carrega consigo a questão construtiva no Brasil, sua força e seus problemas” (Ronaldo Brito. In: Hércules Barsotti. São Paulo: Gabinete de Arte Raquel Arnaud Babenco, 1981).

Seus estudos de desenho e composição foram iniciados em 1926 com o pintor italiano Enrico Vio, em São Paulo. Em 1937, formou-se Química Industrial pelo Mackenzie e trabalhou neste campo até 1939. Em 1940 fez suas primeiras pinturas, ainda figurativas, aproximando-se da abstração geométrica a partir de 1950, com desenhos em nanquim. Suas primeiras obras concretas datam de 1954. Neste ano, fundou com Willys de Castro um estúdio de design gráfico.

A arte concreta sempre esteve relacionada com a industrialização, a arquitetura e o design. Assim, suas obras possuíam a estrutura compositiva da gestalt visual, mesma linguagem utilizada nos cartazes. Além de produzir suas obras plásticas e trabalhar como design gráfico, projetava também estampas de tecidos, em tecelagem própria, e desenvolvia figurinos para o teatro. É um dos primeiros membros da Sociedade Brasileira de Desenho Industrial e desenvolveu, junto com Willys de Castro, o logotipo da Galeria Novas Tendências, onde atuou junto ao grupo concreto de São Paulo, de 1963 a 1965.

Em um período em que os artistas concretos se organizavam em grupos, Barsotti seguiu seu próprio caminho individualmente durante toda a década de cinqüenta. Em 1958, foi à Europa e conheceu Max Bill, artista concreto suíço, fundador da Escola Superior da Forma, em Ulm, na Alemanha, que o havia influenciado desde sua exposição no Brasil, no final da década de quarenta. Em 1960, Bill organizou a mostra Konkrete Kunst, em Zurique, onde os artistas concretos brasileiros participaram em grande número, inclusive Barsotti.

Ainda em 1960, Ferreira Gullar, ao verificar que sua obra possuía uma estruturação orgânica que ultrapassava as reflexões óptico-visuais da arte concreta, o convidou para integrar as mostras do Grupo Neoconcreto. Eram obras em que o artista explorava superfícies homogêneas (pretas ou brancas), com faixas em diagonal que se afinavam ou engrossavam nas margens da tela, sugerindo uma curvatura do quadro e criando um objeto ambíguo. Barsotti e Willys de Castro são os únicos artistas paulistas a participarem do grupo carioca, que havia rompido com o movimento concreto de São Paulo, o Grupo Ruptura, em 1959.
A partir de 1963, Barsotti abandona os desenhos de contraste em branco e preto, para explorar as demais possibilidades cromáticas, sempre em jogos meticulosamente calculados para criar, apenas na relação entre elas, uma sensação de volume e movimento, auxiliados também por formatos não ortodoxos de quadros: losangos, hexágonos e elipses. Durante toda sua vida, alheio aos diferentes modismos, manteve-se fiel às reflexões originadas na arte concreta. “Barsotti tem estado, há muito tempo, a produzir uma obra inteira, contínua, que embora subdividida em várias partes - em várias obras - independentemente de quando tenham sido produzidas, guardam entre si estreitas relações de parentesco” (Willys de Castro. In: Obras recentes de Hércules Barsotti. São Paulo: Galeria Arte Global, 1974).

 

 

Tatiana Rysevas Guerra
(bolsista I.C. - FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini de Alvarado
(orientadora - MAC-USP)