AMILCAR DE CASTRO
Paraisópolis, MG, 1920 - Belo Horizonte, MG, 2002

“Amílcar é um artista de muitas e complexas indagações de modo que sua obra evolui, pausada e densamente, como o produto de uma experiência mais geral de que a obra busca a expressão exata e definitiva. (...) E a importância do trabalho de Amílcar - como em geral dos artistas neoconcretos - reside precisamente na tentativa de formular o mundo pela primeira vez, de capta-lo numa síntese intuitiva. Trata-se de uma experiência dramática em que à liberdade total se opõe uma vontade de ordem, mas uma ordem que brote da liberdade mesma. (...) Por isso mesmo, as obras de Amílcar são não-objetos, não tem base, suporte, nem precisam ter, uma vez que na sua origem mesma está esse desamparo essencial que é a condição da experiência estética. Para o artista e para o espectador”, escreveu Ferreira Gullar (1985, p. 262).

Transferiu-se para Belo Horizonte em 1934, onde se formou em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1945. Freqüentou o curso livre de desenho e pintura de Guignard, na Escola de Arquitetura e Belas Artes, e estudou escultura com Franz Weissmann, em uma época em que ambos eram figurativos. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1950, trabalhando como programador visual. Influenciado por Max Bill, em 1952 fez suas primeiras obras de caráter concreto, expostas no ano seguinte na II Bienal Internacional de São Paulo. Expôs também na I Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956/57, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em 1957, reformulou a diagramação do Jornal do Brasil, que possuía um suplemento dominical de grande importância nos anos cinqüenta, como espaço de debates sobre arte contemporânea.

Amílcar iniciou uma longa reflexão de amadurecimento de sua obra, intuindo-lhe de uma linguagem própria e indagadora. Sua busca reside na significação profunda da forma, que transcende à percepção física. Esta concepção o ligou ao Grupo Neoconcreto, do qual foi um dos fundadores a partir de 1959. Suas obras do período eram formadas por uma chapa de metal cortada ao meio e torcida em dois planos, para cima e para baixo, dialeticamente. Era um novo dinamismo do espaço. Por volta de 1960, ampliou o alcance obtido pela orientação dos cortes e dobras. Os ritmos dados pelos levantamentos e torções das placas, pela diferença de planos, pela tensão da superfície, dão à obra grande vitalidade e dinamismo, que parecem detidos dentro de si mesmos, nos convidando para a intimidade do trabalho. Sua obra é não-alusiva ao mundo real. Traz novas reflexões para a arte não-figurativa, que são de natureza transcendental. O artista, ao longo de toda a vida, realizou lentamente estas experiências, como rituais espirituais diários. A obra de Amílcar reflete sobre o espaço e se insere no espaço. Desde modo, possui diversas obras públicas, em jardins e praças. Dois exemplos são seus trabalhos: na Praça da Sé, em São Paulo, feita em 1978, e nos jardins do MAC-USP, de 1985.

De 1968 a 1971, vive em Nova Jersey, nos EUA, como bolsista da Guggenheim Memorial Foundation. Ao retonar ao Brasil, passou a viver em Belo Horizonte, lecionando composição e escultura na Escola Guignard, até 1977. Ministrou aulas também na Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais. Durante as décadas de oitenta e noventa, retoma a escultura e o desenho, realizando litografias e nanquins gestuais.

Tatiana Rysevas Guerra
(bolsista I.C. - FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini de Alvarado
(orientadora - MAC-USP)