LYGIA PAPEANÁLISE

Sem Título, 1956
Xilografia s/ papel, 28,0 x 23,7 cm
Doação MAM-SP. Acervo MAC-USP

A xilogravura possui uma poética particular, ligada à idéia do homem próximo à natureza, devido ao caráter artesanal da madeira. Já a composição, geométrica, em que paralelepípedos e triângulos se sobrepõe em um ritmo ditado pela gestalt, contrastando com o fundo em uma relação positivo-negativo, se aproxima a uma estética da arte concreta, que valoriza a organização racional da composição, em vista a um contexto de urbanidade industrial. É interessante como a artista consegue unir estes dois conceitos, aparentemente opostos, nesta obra: o tradicional e o moderno; o rural e o urbano.

Para a artista, a gravura em metal apresentava muita interferência entre o ato criador e a impressão final. Por isso a escolha da madeira, que era mais direta. “Na xilo eu tinha que necessariamente trabalhar sobre um espaço horizontal, diferente da pintura. Mudou minha perspectiva em relação ao espaço. Eu tinha agora uma superfície negra, de madeira tintada, cheia de pequenos riscos brancos (o poro da madeira) e a minha faca abria o espaço branco: inicialmente fios e superfícies que iam aos poucos crescendo, contra o próprio sistema da xilo, onde o branco era discreto e indicava, quase sempre, o limite ou perfil da imagem ou figura. O que me interessava era abrir espaços (o branco) cada vez maiores, atingir o limite extremo da expressão através de um mínimo de elementos. (...) Mas havia o problema do espaço: a relação construtiva, formas que se inter-relacionavam e criavam estruturas ambivalentes, onde não havia mais a posição privilegiada de ter uma única posição”, disse Pape, em depoimento (COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella; 1987; p. 159).

Tatiana Rysevas Guerra (bolsista FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini (orientadora)