“De repente, pintura não era só pintura, poesia não era só poesia, e começaram a se misturar as linguagens. Então a escultura deixou de ter uma posição privilegiada, quer dizer, de ter um pedestal, a pintura não era mais só pintura pois tinha elementos, problemas de espaço, que foram a quebra da moldura e outras coisas, a poesia também não era uma palavra sobre um suporte de papel, quer dizer, a dobradura, o corte do papel participavam como expressão também”, disse, Pape, em depoimento, em 1987.

Artista-pesquisadora, sua obra destaca-se pelo caráter reflexivo e experimental, à frente de seu tempo. Estudou com Fayga Ostrower e Ivan Serpa no início dos anos 1950, quando sua obra se aproximou da arte concreta, com simplificação formal e utilização da gestalt como princípio de composição. Juntamente com os artistas que se reuniam para as aulas de Serpa, foi uma das fundadoras do Grupo Frente, em 1954. Em dezembro de 1956 (SP) e janeiro de 1957 (RJ), participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta. Esta mostra foi o início dos debates entre os artistas concretos que levaram ao surgimento do Grupo Neoconcreto, no Rio de Janeiro, em 1959, o qual Pape fundou e participou ativamente.

Em 1958, baseada no poema de Reynaldo Jardim Olho e Alvo, apresentou o Balé Neoconcreto, no Teatro do Copacabana Palace. As personagens do balé eram cilindros e paralelepípedos, que se moviam no palco, com pessoas dentro, que não eram vistas pelo espectador. O cenário era preto, com luzes que incidiam nas formas, e o som era a música concreta de Pierre Henri. Em 1959, na Exposição de Arte Neoconcreta, no MAM-RJ, apresentou o segundo Balé Neoconcreto, também em co-autoria com Reynaldo Jardim, responsável pelo som, considerado pela artista a “primeira obra minimalista em música”. Nesta mostra, apresentou também suas xilogravuras.

“No dia em que fiz uma gravura toda branca, parei. Cheguei à luz. Aí fui fazer cinema”. Em 1959, fez um roteiro para um filme sobre Brasília, “em que ele próprio ia se construindo, como Brasília”. Realizou diversos curtas, e trabalhou em filmes do Cinema Novo, como Mandacaru Vermelho, Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol, entre outros. Obteve um prêmio internacional, em Montreal, em 1967, pelo filme La Nouvelle Creation, em que utilizou imagens da Nasa, do primeiro vôo para a Lua.

Ainda em 1959, a artista realizou seus livros-poema, começando pelo Poema-Xilogravura, em que diferentes linguagens se mesclavam (espectador-leitor), e culminando no Livro da Criação, que contava a história da criação do mundo com formas e cores. “É muito bonito, é um poema e ao mesmo tempo esculturas desdobradas no tempo e no espaço. É uma invenção. (...) Você cria o seu ‘livro da criação’”.

Paralelamente a estas atividades, ainda realizou esculturas em madeira, no início dos anos 1960, e trabalhou como designer, desenhando marcas e embalagens. Em 1967, na mostra Nova Objetividade Brasileira, expôs suas caixas que ela definiu como “humor negro”, com forte conotação política, como a Caixa das Baratas, e a Caixa das Formigas (que, segundo a artista, escapavam durante a exposição e iam subir nas outras obras, subvertendo a ordem museológica), além de Ovo, que solicitava a participação sensorial do público.

Atuou também na área de educação, lecionando no MAM-RJ, na Faculdade de Arquitetura Santa Úrsula, onde foi professora de Semiótica do Espaço, e na Escola de Belas Artes da UFRJ, da qual recebeu o título de mestre em estética filosófica.

Se a arte concreta e neoconcreta buscavam aproximar arte e vida, Pape é uma das que mais conseguem fazê-lo, atuando, experimentando e mesclando diversas linguagens: pintura, desenho, gravura, teatro, cinema, literatura, educação, programação visual. Assim, a artista realizou o que Mário Pedrosa definiu como arte: um “exercício experimental da liberdade”.

Tatiana Rysevas Guerra
(bolsista FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini
(orientadora)

LYGIA PAPE
Friburgo (RJ), 1929
Rio de Janeiro (RJ), 2004
Home Mapeamento: Módulo III