LYGIA CLARK – ANÁLISE

Plano em superfícies moduladas nº 2 1956
Tinta industrial s/ celotex, madeira e nulac,
90,1 x 75,0 cm.
Doação MAM-SP. Acervo MAC-USP

Referência: CINTRÃO, Rejane; NASCIMENTO, Ana Paula. Grupo Ruptura. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. p. 55

Segundo Ferreira Gullar, Lygia Clark iniciou em 1954 uma pesquisa que acabou, por um lado, por romper com a temática concretista e por outro, por realizá-la com mais eficiência. Os concretos queriam romper com o conceito de obra que representasse o mundo. Para isso, utilizaram a linguagem da matemática, criando uma nova realidade no quadro, e trabalharam diretamente no mundo, com o design e o urbanismo.

Mas nas suas obras ainda ficava uma questão. A tela em si, já significa um espaço de representação. Logo, o fato dos artistas trabalharem com a tela, não rompia totalmente com o conceito de obra representando o mundo. A problemática da figura-fundo ainda permanecia.

Lygia Clark passou então a construir o espaço de seus quadros. O trabalho do artista não estava mais desligado da preparação do suporte. O quadro não era mais o espaço para representar a expressão. Quadro e expressão agora se confundiam. Assim, ela eliminou o contraste entre o fundo representativo e a forma: o quadro inteiro é a forma, e está diretamente inserida no mundo, sem os limites da moldura.

Partindo desta idéia, analisemos a obra Plano em superfícies moduladas nº 2, de 1956. Por um lado, a artista utilizou materiais industriais e a simplificação formal às estruturas geométricas básicas, organizadas segundo as leis da gestalt, o que nos remete à sua origem concreta. Mas foi além, construindo o próprio quadro. É formado por uma base de aglomerado de madeira, sobre a qual foi colocada uma argamassa industrial. Nesta argamassa a artista imprimiu sua composição, e fez incisões, como se estivesse recortando o quadro em pedaços. Quando a observamos ao vivo, temos esta visão de placas reunidas para formar o quadro.

Não há moldura, não há espaço pré-fabricado. A artista constrói o quadro como um todo, com elementos retirados do mundo material. E o quadro resultante também se insere no mundo material, em uma relação que busca igualar arte e vida.

Tatiana Rysevas Guerra (bolsista FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini (orientadora)