Criado como resposta à destruição e a desumanidade da guerra, o Cobra procura retomar os valores humanos básicos. Seu nome é formado pelas iniciais de Copenhague, Bruxelas e Amsterdã, numa referência a idéia bíblica da serpente como um ser que corrompe, ao mesmo tempo que inicia a humanidade. Símbolo da abertura do pós-guerra, o grupo constitui uma releitura histórica das culturas nacionais, a medida que estas devem estar ligadas ao contexto internacional. Uma nova proposta, que junta a doutrina marxista e a arte em um projeto utópico. A geração de artistas nórdicos que começa a aparecer por volta dos anos 50 se sente marginalizada diante do restante da Europa. Sua cultura é constantemente vista como periférica, especialmente pelo centro artístico de Paris. Esta sensação de exclusão leva a formação de grupos como Jovem Pintura Belga e Grupo experimental, ambos participantes do Cobra, onde o resgate da tradição local e a atualização da linguagem artística são elementos criadores de uma nova expressão. A influência de artistas estranhos a cultura nórdica, como Joan Miró e Wassily Kandinsky, aliada a particularidade de cada país, constitui uma integração produtiva, que vai contra a realidade da guerra.

Relacionando o homem com o mundo, os artistas partem da psicologia de Carl Jung para, através da arte dos loucos, das crianças e dos primitivos, realizar uma arte fantástica, fabulosa e mitológica. Em reuniões, das quais participavam também as famílias dos artistas, discutiam e pintavam com ajuda de todos. O resultado é a aproximação com a abstração, onde a liberdade de expressão é a preocupação principal. Artistas como Karel Appel, Pierre Alechinski e Robert Jacobsen mostram estilos muito diversificados, mas se unem pela coletividade e pela troca de experiências.

O marxismo fornece a argumentação teórica para o projeto do Cobra. Criticando o fato da arte ocidental se tornar instrumento da burguesia, além da Revolução Social é preciso uma Revolução Espiritual. Um dos últimos grupos europeus a usar os manifestos como forma de expressão, baseia-se na ideologia de Marx para propor a integração arte e sociedade. No começo da Guerra Fria, a preocupação dos artistas é encontrar um socialismo diferente do soviético em vigor, onde a liberdade se materialize na arte. O Cobra é chamado também de "Internacional de Artistas Experimentais".

As primeiras exposições geram um impacto enorme. Além da quebra total do formalismo, os quadros se apresentam desordenados nas paredes, podendo estar tanto próximos ao chão, como quase no teto. Se na Dinamarca e na Bélgica a aceitação é menos conflituosa, na Holanda, recém saída do Grande Reich Germânico, a repercussão do Cobra atinge toda a sociedade. O expressionismo violento, os traços surrealistas e o abandono da figuração causam um verdadeiro choque. A dinâmica do Cobra inclui ainda a edição de uma revista, boletins e outras publicações para divulgar as idéias do grupo, fazendo com que sua influência seja ainda maior.

No entanto, a aproximação com a Escola de Nova Iorque enfraquece profundamente a originalidade do grupo. O expressionismo norte-americano começa a se impor cada vez mais no cenário artístico dos anos 50, fazendo com que a Europa perca a hegemonia de centro internacional das artes. A dissolução do grupo acaba sendo rápida, transformando o Cobra em um movimento relâmpago, utópico e marcante. No entanto, sua influência permanece nos "happenings", no Grupo Phases e em inúmeros movimentos retomados nas últimas décadas.

Carolina Amaral de Aguiar
(Bolsista IC - FAPESP)
Profª Drª Daisy Peccinini
(responsável pelo projeto)
 
 
     
 
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