Imagens usadas na colagem, da esquerda para direita: "Chegada de Muratori", Cícero Dias, 1927; "Auto-Retrato", sd, Ismael Nery; "Sem título (cabeça de Cristo)", 1925, Antônio Gomide; ilustração de Di Cavalcanti para livro "Fantoches da meia-noite", de Monteiro Lobato; "A Negra", 1923, de Tarsila do Amaral; "Portadora de Perfume", de Brecheret; estudo de poltrona, de John Graz
 


 
Belém, PA, 1900 - Rio de Janeiro, RJ, 1934 
Ismael Nery foi não só artista como homem de vanguarda: desenhista, pintor e arquiteto, filósofo e poeta, teve uma vida breve e intensa, entremeada de acontecimentos trágicos que marcariam profundamente sua obra: perdeu o pai aos 9 anos e o irmão aos 18, fatos que transformaram sua mãe em uma figura perturbada.

Nascido no Pará, veio para o Rio com 9 anos e, ainda adolescente, em 1915, onde ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, mas não se adaptou ao caráter acadêmico do curso. Em 1921 faz sua primeira viagem à Paris, onde estuda na Academia Julian por um ano - período em que aparecem as influências expressionistas, já com o traço pessoal dramático que iria marcar sua obra. Voltando ao Brasil, Nery se casa com Adalgisa, sua eterna musa - veja-se a constante presença do nariz aquilino em suas pinturas. Passou a trabalhar como arquiteto do Patrimônio Nacional, onde conhece o poeta Murilo Mendes, responsável pela preservação da memória e da obra de Nery - muitas vezes recuperava os desenhos do amigo artista da lata do lixo. O poeta conheceu a fundo a personalidade e o sistema filosófico que Nery criou, o Essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço e na preservação de elementos essenciais à existência, concebendo o ser humano de forma totalmente espiritual. 

A obra de Ismael Nery, neste período, aponta influências cubistas fruto de seu primeiro contato com a escola de Paris. Sintoniza-se com o Surrealismo de André Breton e de Pablo Picasso. Diferente dos outros artistas da Primeira Geração Modernista, ele não buscava uma identidade nacional; antes aproximava-se de valores universais, internacionalistas, de acordo com sua idéias filosóficas e místicas. Em sua segunda viagem à Paris, em 27, toma contato com Marc Chagall, o que acentua a presença do surrealismo em sua obra, e o transforma no pioneiro desta corrente no Brasil. Ironicamente, é por este seu espírito vanguardista e internacionalista que Ismael Nery jamais seria reconhecido em vida, apesar de expor algumas vezes a partir de 27 - três individuais, participando ainda do Salão de 1931 ( Salão Revolucionário ) e da exposição organizada pela SPAM ( Sociedade Pró Arte Moderna ) em 1933. 

Jamais venderia um quadro e ficaria marcado como o 'pintor maldito' do Modernismo.
Aos 30 anos, Ismael descobre a tuberculose que o vitimaria em poucos anos. Interna-se no Sanatório de Correias por dois anos, diminuindo o ritmo de trabalho - no entanto a doença marca seu imaginário, através de uma expressão surrealista de caráter orgânico, cujo tema mostra anatomias desfiguradas e viscerais, que lembram às vezes objetos mecânicos ou hidráulicos, traduzindo seu estado de saúde e sua consciência da proximidade da morte. Em 32, desenha a série História de Ismael Nery, uma melancólica autobiografia.

Ismael Nery morreu em 6 de abril de 1934, em casa, como era seu desejo. Sua obra só começaria a ganhar reconhecimento a partir de 1966, com uma exposição na Petite Galerie do Rio de Janeiro. O realismo social da década de 30 e as tendências abstratas dos anos 40/ 50 não deixaram espaço para o figurativismo espiritual e católico de Nery. Hoje, no entanto, ele é reconhecido, junto com Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, como um dos maiores artistas de sua geração.


Ismael Nery em foto de 1929, retirada do livro Ismael Nery - 50 anos depois, p. 23.


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