Glênio Bianchetti

AUTO RETRATO, sd
XILOGRAFIA S/ PAPEL , 28.8 X 24.2 (26.2 X 20.9)
DOAÇÃO DANÚBIO VILLAMIL GONÇALVES


Esta obra provavelmente é posterior ao Clube de Gravura, ainda que na década de 50 - parece posterior porque possui mais apuro técnico, possui uma perfeição de linhas que demonstra um artista já experiente mais ainda investigando a madeira. Repare-se também que o fundo do quadro mostra uma casa simples, tipicamente interiorana, e a caracterização do próprio Glênio Bianchetti é bastante típica dos ‘rancheiros’ gaúchos.

PEQUENA OLARIA, 1951
LINOLEOGRAFIA S/ PAPEL, 24.3 X 34.5 (17.4 X 26.3)
DOAÇÃO DANÚBIO VILLAMIL GONÇALVES


Esta obra segue os cânones do Clube de Gravura, que Glênio Bianchetti ajudou a fundar, tanto em Porto Alegre como em Bagé. A temática popular, o retrato de trabalhadores do campo, exaltando ao mesmo tempo que denunciando as condições do homem pobre, é característica do realismo social. O trabalhador é representado como um homem forte, robusto, capaz - note-se que existe mesmo uma desproporção entre o seu tamanho e o do cavalo. A técnica também é característica do Clube, por se tratar de processo mais acessível e popular.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Danúbio Gonçalves

XARQUEADA, 1952
XILOGRAFIA S/ PAPEL, 23.6 x 30.3 ( 19.5 X 27.0 )
DOAÇÃO ARTISTA

Esta obra - que faz parte de uma série de mesmo nome, conferiu a Danúbio Gonçalves o prêmio de viagem ao país no II Salão Nacional de Arte Moderna, em 1953 - pode ser considerada emblemática da Modernidade Gaúcha: a começar pela técnica da xilografia, por excelência o meio escolhido pelos artistas do Clube de Gravura na grande maioria de suas obras, em especial pelo seu baixo custo e sua facilidade de reprodução. O tema é outra característica própria dos artistas do sul, ou seja, cenas do interior do estado, de trabalhadores humildes e anônimos, atendendo aos ideais que os artistas do Clube esperavam expressar através do realismo social.


Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Carlos Scliar

SOLDADOS NO FRONT, sd
XILOGRAFIA S/ PAPEL, 32.7 X 21.9 ( 23.0 X 17.1 )
DOAÇÃO DANÚBIO VILLAMIL GONÇALVES

A experiência da guerra na Itália, em 1944, foi marcante na obra de Scliar: lá, ele realiza muitos desenhos, que resultam nos Cadernos de Guerra, que publica no seu retorno ao Brasil. Esta obra, apesar de ter sido realizada aqui, expõe a solidão e o medo durante a espera da batalha. É notável a influência do expressionismo, e curioso é o fato desta gravura ser bastante diferente das outras obras do artista presentes no acervo. Apesar de não ser datada, é provável que tenha sido realizada no começo dos anos 50, no clima do pós-guerra e pouco antes da fundação do Clube de Gravura.

 

BUMBA MEU BOI, 1950
DO ÁLBUM GRAVURAS GAÚCHAS
OFF-SET A CORES S/ PAPEL, 32.8 X 23.9 ( 23.2 X 15.5 )
DOAÇÃO CARLOS SCLIAR

Esta obra traz a marca da Modernidade Gaúcha, não só pela técnica, mais em especial pela temática regional e popular, específica do sul do país. É perceptível também a marca do ilustrador, por ter uma característica gráfica muito forte.

 

SEM TÍTULO, 1972
DO ÁLBUM RUMO E PESQUISA
SERIGRAFIA A CORES S/ PAPEL, 70.2 X 50.4 ( 56.3 X 36.9 )
DOAÇÃO ARTISTA

Esta obra possui a característica marcante da temática abstrata de Scliar, que são as jarras. Este álbum. Rumo e Pesquisa, demonstra claramente a concepção da obra, através de estudos minuciosos que podem ser constatados ao longo do processo. A abstração na obra de Scliar passa por um longo processo que o lavará, mais tarde, para a colagem. Apesar disso, jamais abandona a gravura, por ser uma técnica mais acessível, dentro de seus ideais de homem de esquerda.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Edgar Koetz
(Porto Alegre, RS, 06/08/1913 - Porto Alegre, RS, 1969)

Edgar Koetz foi um artista característico do primeiro momento da Modernidade Gaúcha. Sempre ligado às artes gráficas, sua obra evoluiu dentro do figurativismo moderno, e a temática dos tempos do Clube de Gravura foi ligada aos trabalhadores pobres e rurais da periferia gaúcha.


Começou trabalhando na Livraria do Globo, sob orientação de Ernest Zeuner, e, em 1938, participou junto com outros artistas da fundação da Associação de Artes Plásticas Francisco Lisboa. Em 1945, vai para Buenos Aires, onde permanece por cinco anos, trabalhando em várias editoras. Ilustrou o livro Juarez e Maximiliano, de Franz Werfel, pelo qual recebeu o Grande Prêmio da Câmara Argentina do Livro. Ainda em Buenos Aires fez uma exposição de pinturas e monotipias na qual todas as obras foram vendidas para uma galeria portenha.


Em 1950, de volta à Porto Alegre, participa com Carlos Scliar, Vasco Prado, Danúbio Gonçalves, Glauco Rodrigues, entre outros, da fundação do Clube de Gravura de Porto Alegre, do qual participa por um curto período, que, no entanto, rende gravuras típicas do Realismo Social. Neste mesmo ano recebe Medalha de Ouro da Associação Francisco Lisboa pelo conjunto de sua obra (pintura, desenho, gravura e artes gráficas).

Em 1952, Koetz se transfere para São Paulo, onde leciona Anatomia da Letra no MASP. Conquista, na ocasião do 4º centenário da cidade, dois prêmios no concurso para os selos comemorativos. Neste período está afastado da pintura, que só ira retomar em 1964, quando volta para Porto Alegre. Roberto Pontual acredita que o artista sempre tentou, em seus quadros, ‘passar uma certa solidão, uma espécie de intimismo’, que dá à sua obra um caráter harmonioso e lírico.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Vasco Prado
(Uruguaiana, RS, 1914 - Porto Alegre, RS, 1998)

Considerado um dos mestres da escultura no Brasil, Vasco Prado buscou, durante mais de 40 anos, a simplicidade ao mesmo tempo que a monumentalidade em suas criações.

Nascido em Uruguaiana, dizia-se um autodidata, apesar de ter recebido ensinamentos de Oscar Boeira em 1941, quando começou a sua atividade de artista. Logo no ano seguinte, suas obras se destacam no IV Salão da Associação Francisco Lisboa. Em 1947, vai à Paris como bolsista do governo francês, e estagia no ateliê de Fernand Léger, estudando escultura com Etiénne Hajdu. É em Paris que trava contato com Carlos Scliar e, dos encontros dos dois com Leopoldo Mendez, fundador do Taller da Gráfica Popular do México, nasce a idéia do Clube de Gravura de Porto Alegre, que será posta em prática na volta dos dois gaúchos ao Brasil, em 50.

A trajetória de Vasco Prado demonstra um constante aperfeiçoamento que vai do desenho à gravura para finalmente chegar à maestria no ofício de escultor. Trabalhando em bronze, terracota, mármore, madeira ou até alumínio e ligas metálicas, sua obra é essencialmente gráfica, de linhas despidas, com uma forma preocupada com o jogo de claro-escuro responsável pelo volume peculiar das composições. Um dos temas mais presentes na sua obra, o cavalo, representa a liberdade ao mesmo tempo que o prende à regionalidade gaúcha. A mulher, outro tema recorrente , aparece como símbolo de fertilidade e eternidade. Seu trabalho é recheado de significados políticos, pois Vasco foi, desde cedo, um homem politicamente atuante; porém, sua posição esquerdista não o impediu de fazer alguns trabalhos para o governo, sempre cheios de significação - como a escultura ‘Tiradentes’, de 1976, feita para o jardim da Assembléia Legislativa gaúcha. Uma de suas esculturas foi, inclusive, vítima da incompreensão: instalada na cidade de Alegrete, a obra ‘Negrinho do Pastoreio Triunfante’ foi alvo de uma campanha que afirmava que ela nada tinha a ver com a lenda do ‘Negrinho’ e que as formas eram desproporcionais e não condiziam com a figura eqüestre que os gaúchos estavam acostumados a respeitar (!).

Vasco morreu aos 84 anos, de parada cardíaca, enquanto dormia. Sua morte parece representar a calma com que buscou tudo na sua obra, metódica e certeiramente.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Glênio Bianchetti
(Bagé, Rio Grande do Sul, 1928)

Glênio Bianchetti é uma das figuras fundamentais da Modernidade Gaúcha, junto com Carlos Scliar, Glauco Rodrigues, Danúbio Gonçalves e Vasco Prado; com eles integrou o chamado grupo de Bagé, que em 50 deu origem ao Clube de Gravura de Porto Alegre, agrupamento que visava criar uma identidade e dar oportunidade de investigação da técnica para os artistas gaúchos.

Bianchetti começou a pintar em 1944, mudando-se em seguida para Porto Alegre para estudar no Instituto de Belas Artes. Em 53, passa a dirigir o setor gráfico da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, início de sua trajetória de grande importância como dirigente de instituições culturais, já que em 60 passa a dirigir o Museu de Arte gaúcho e, em 61, transfere-se para Brasília, onde organizará o setor gráfico da Universidade de Brasília, que estava prestes a ser inaugurada. Ainda coordenará o ateliê de pintura desta Universidade até 65, quando passa a se dedicar exclusivamente à pintura.

Desde logo, Glênio Bianchetti abandona a abordagem realista do Grupo de Bagé, incorporando soluções tipicamente cubistas, presentes na simplificação da figura humana. A gravura passa a ter grande importância no desenvolvimento de seu estilo, e o corte que imprime tem traços característicos do expressionismo. Com o passar do tempo estes cortes são traduzidos para a pintura na forma de planos coloridos, que irão ganhar as cores do cerrado, quando de sua mudança para Brasília. Como ele mesmo explica, a mudança de ambiente trouxe uma alteração na luz que propiciou a mudança cromática de sua obra. Ele avalia ainda que cada período de aperfeiçoamento de seu veio expressionista era antecedido por uma volta ao realismo de suas raízes, herança do grupo formado pelos protagonistas da Modernidade Gaúcha.

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Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Glauco Rodrigues
(Bagé, RS, 1929)

Glauco Rodrigues, junto com Carlos Scliar, conseguiu perpassar a Modernidade Gaúcha, se dirigindo, a partir dos anos 60, para os centros artísticos nacionais e internacionais.

Assim como seu conterrâneo Glênio Bianchetti, Glauco também estudou com José Morais em 1946, apesar de ter começado a pintar antes disso. Em 47 começa a freqüentar a Escola de Belas Artes de Porto Alegre, para em 48, freqüentar a Nacional, no Rio de Janeiro. É neste ano que acontece a mostra ‘Novos de Bagé’, com obras de Glauco, Bianchetti e Danúbio Gonçalves, entre outros. Muda-se para Porto Alegre em 1954, após ter participado da fundação do Clube de Gravura.

Durante este período, sua obra se caracteriza pelo realismo social, que marca todos os gravadores gaúchos da década de 50, conseqüência da difusão da modernidade no Estado. Em 58, porém, quando muda-se para o Rio, trabalhando na Revista Senhor como ilustrador e paginador - mais tarde como diretor de arte - começa a se definir seu trabalho dos anos 60.

Durante um período, de 60 a 65, morando na Itália, seu trabalho tem tendências abstratas, influenciado pela pop arte. Porém, retornando ao Brasil, integra-se nas tendências figurativas e participa da Nova Objetividade Brasileira; seus temas passam a ser tropicais, sempre trabalhadas na forma de séries, como a de 67/ 68, das praias de Ipanema e, depois de 69, a constante presença do índio. Segundo Frederico Morais, Glauco Rodrigues promove uma ‘carnavalização de nossa cultura e de nossa história’, e segundo o próprio artista, sua obra se assemelha a uma escola de samba, que a cada ano traz um tema diferente, mas sempre mantendo alguns elementos fixos. Nos anos 70, sua obra é marcada pelas cores da bandeira nacional, com as quais realiza séries como Terra Brasilis, de 1970, e Accuratissima Brasiliae Tabula, de 74. É nesta época que começam a surgir frases em seus quadros, que acabam ganhando expressividade ao longo dos anos, em especial durante a ditadura militar, já que foi um dos artistas que não interrompeu seu trabalho e conseguiu ‘enganar’ a censura, sem deixar de passar sua mensagem.

Em 1979, faz uma série de desenhos, pinturas e serigrafias, Tradições Gaúchas, resultado de uma viagem às estâncias de Bagé, que realizou com Carlos Scliar e Bianchetti, seu companheiros da Modernidade Gaúcha, marcando o seu retorno ao regionalismo.

Glauco Rodrigues recebeu vários prêmios desde a década de 50. Primeiro em 50, a medalha de bronze na divisão moderna do Salão Nacional de Belas Artes; em 60, o prêmio de viagem ao país no IX Salão Nacional de Arte Moderna - do qual participou de 52 a 61. Participou da Bienal de Veneza em 64, e em 67, ganhou o prêmio aquisição na IX Bienal de São Paulo. Fez ainda muitos painéis no Rio de Janeiro, ilustrou o livro de Érico Veríssimo O Tempo e o Vento’, e até pintou um quadro para o Papa João Paulo II, a pedido de Oscar Seraphico, a primeira missa no Brasil.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Danúbio Gonçalves
(Bagé, RS, 1925)

Destacando-se como gravador, desenhista e professor, Danúbio Gonçalves é, entre os artistas mais importantes da Modernidade Gaúcha, o que teve melhor formação técnica. Tendo feito seus estudos na Sociedade Brasileira de Belas Artes, no Rio de Janeiro, durante a década de 40, estudou com Portinari, Axel Leskochek, Carlos Oswald e Tomas Santa Rosa.

Em 1948, retornando à sua cidade natal, integra-se ao chamado Grupo de Bagé, montando um ateliê coletivo , e, em 51, depois de ser um dos fundadores do Clube de Gravura de Porto Alegre, cria lá uma associação semelhante. Dentro das atividades do Clube, passa uma temporada nas estâncias do interior, desenhando juntamente com Carlos Scliar e Glauco Rodrigues. Em 1955 transfere-se definitivamente para Porto Alegre, e passa a realizar a importante série de gravuras sobre os mineiros de Butiá.

Na década de 70, Danúbio começa a lecionar no Atelier Livre da Prefeitura e mais tarde torna-se seu diretor, cargo em que permanece por 15 anos. É importante salientar que sua atuação foi fundamental na consolidação do Atelier e na formação de toda uma nova geração de artistas gaúchos, em especial na técnica da litografia, na qual Danúbio se especializa. Durante os anos 80 e 90 se dedica à crítica do consumismo e à exaltação do erotismo, com mais influências abstratas, sem, no entanto, se afastar definitivamente do figurativo.

Sua atuação no sentido da profissionalização e do reconhecimento do artista foi muito importante, até pelo seu papel de diretor do Atelier Livre, o que ainda lhe conferia acessibilidade. Em abril de 2000 foi lançado, junto com uma exposição que homenageava 50 anos de carreira do artista, o livro Danúbio Gonçalves: Caminhos e Vivências, demonstrativo da importância dele no desenvolvimento das artes plásticas gaúchas.

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Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Carlos Scliar
(Santa Maria, 21/06/1920)

Carlos Scliar é uma das figuras mais importantes da Modernidade Gaúcha, no processo de espraiamento da Modernidade no Brasil. Experiente gravador e desenhista dedicado, dedicou sua vida à arte, jamais deixando de aprimorar suas técnicas e fazer sua própria autocrítica, percebida através de longos períodos de isolamento. Sua disciplina de trabalho apontam-no como exemplo a ser seguido pelas novas gerações de artistas brasileiros.

Talento precoce, em 35, com apenas 15 anos seus trabalhos tiveram destaque na Exposição Centenário Farroupilha, em Porto Alegre, onde vivia desde pequeno. Um ano depois inicia sua carreira como ilustrador da Revista do Globo. No ambiente da revista surgirá, em 38, a Associação de Artes Plásticas Francisco Lisboa, de grande importância para a renovação artística do Estado. Em 1939 viaja ao Rio de Janeiro, onde trava contato com Portinari, que terá grande influência no seu trabalho, e a São Paulo, onde conhece o rebelde modernista Flávio de Carvalho e Joaquim Figueira. Muda-se para São Paulo em 40, integrando-se ao grupo da Família Artística Paulista, participando de seu último salão. É nessa cidade que se realiza sua primeira exposição individual. Durante este período irá tomar parte, juntamente com o grupo paulista, da Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes, no Rio, onde obtém medalha de prata em pintura no ano de 1940.

Em 1944 é convocado para a FEB (Força Expedicionária Brasileira), partindo para a Itália, onde realiza muitos desenhos, que resultam no Caderno de Guerra, publicado anos depois. Após a guerra inicia-se uma mudança temática na obra de Scliar, no sentido de deixar o realismo social e as influências expressionistas das obras anteriores e se dedicar a pintar coisas simples e cotidianas - como as naturezas-mortas. Parte para Paris em 1947, onde participa da Association Latino-Américaine de Paris e participa intensamente das movimentações políticas. Retorna em 50 para dar continuidade ao seu projeto da Modernidade, fixando-se em Porto Alegre, período em que se dedicará intensamente à gravura, através de viagens às estâncias de Bagé, no interior do Estado, juntamente com outros expoentes do Modernismo Gaúcho - Glênio Bianchetti, Glauco Rodrigues e Danúbio Gonçalves - que serão também seus parceiros na fundação do Clube de Gravura de Porto Alegre, importante para a divulgação da tradição gravurista do Estado. Nos seis anos em que permanece no sul recebe diversos prêmios pelos seus desenhos e gravuras, além de realizar ilustrações para o livro Seara Vermelha, de Jorge Amado, entre outros. Em 58, já morando no Rio, começa a trabalhar como diretor de arte da revista Senhor, onde permaneceria até 60, quando encerra seu trabalho no setor gráfico - contratado pela Petite Galerie, pode dedicar-se inteiramente à pintura.

No decorrer dos anos 60, Scliar se encantará por Cabo Frio e por Ouro Preto, cidades que terão forte presença em sua obra. Realiza grandes painéis, o primeiro por indicação de Lucio Costa, para o Banco Aliança no Rio - hoje tem cerca de 20, espalhados por todo o país, na maior parte contendo temas históricos. Em 1970 virá o reconhecimento: a retrospectiva realizada por Roberto Pontual no MAM do Rio, conta com mais de 800 obras e obtém grande repercussão nacional.

Scliar sempre foi um artista ativio, jamais tendo deixado a gravura, por considerá-la uma técnica menos elitista - mas aos poucos desenvolveu a técnica em colagem, que terá grande importância nos últimos anos. Mesmo realizando trabalhos em outras áreas, como gráfico, ilustrador e até roteirista, Scliar dedicou sua vida em busca de uma síntese em seu trabalho, ao mesmo tempo em que sempre lutou pelo reconhecimento do papel do artista na sociedade, imprimindo dignidade ao ato de pintar. Morreu aos 80 anos, no Rio de Janeiro, e suas cinzas foram jogadas em Cabo Frio, cidade em que morava havia vários anos.

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Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


O Grupo de Bagé

Foi uma das manifestações mais importantes e surpreendentes das artes do sul do país, durante os anos 40. O grupo se formou em torno do poeta Pedro Wayne e do pintor carioca José Morais, que irão incentivar jovens talentos da região, entre eles Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti e, mais tarde, Danúbio Gonçalves, apurando-lhes a técnica e dando início a um movimento modernizante na arte riograndense. Mais tarde este grupo irá se juntar a Carlos Scliar e Vasco Prado, entre outros, para dar origem ao Clube de Gravura de Porto Alegre.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

 


Clube de Gravura de Porto Alegre

A idéia de criar o Clube de Gravura nasceu dos encontros de Carlos Scliar e Vasco Prado com Leopoldo Mendez, um dos fundadores, na década de 30, do Taller da Gráfica Popular do México. O TGP pretendia ser uma associação de artistas engajados nas reformas sociais que estavam sendo realizadas no país desde a primeira década do século XX. Tinha uma posição estilística voltada para a negação das correntes de vanguardas européias, pois pregavam uma arte de fácil compreensão para a massa popular, demonstrando sua opção ligada ao socialismo.

Já o Clube de Gravura, criado na década de 50, não teve o mesmo engajamento político, tendo no entanto clara tendência esquerdista. Seus artistas pregavam o realismo socialista, voltada para o cotidiano popular e uma pintura de temática nacional, o que o torna extremamente importante no contexto da Modernidade gaúcha, já que foram seus fundadores os primeiros a pregarem diretrizes ligadas ao movimento paulista da década de 20, que deu origem ao Modernismo Brasileiro. Neste sentido, Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves, Glauco Rodrigues, Vasco Prado e especialmente Carlos Scliar representaram um elo de ligação com os paulistas e mesmo com a vanguarda européia. Tendo, sem dúvida, suas limitações estéticas devido ao radicalismo figurativo e regionalista, e sem escapar do academicismo que tanto queriam combater, o Clube rompeu pela primeira vez com o isolamento do sul do país e deu oportunidade a muitos artistas de apurarem sua técnica, seja em aulas de ateliê ou em viagens empreendidas pelas estâncias do interior do estado, resultado da influência do Grupo de Bagé.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
(bolsista IC/FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)