Aldemir Martins é um dos artistas mais populares do Brasil. Com uma obra de um expressionismo lírico e de cores fortes, e com temas tradicionalmente nordestinos ou saídos da natureza - animais, flores - é um artista extremamente versátil. Além de pintor, desenhista e gravador, Aldemir já criou estamparia para tecido, desenhos para azulejos e papel de parede, outdoors, cenários para teatro e para TV, ilustrou livros, pratos, copos, e ainda embalagens de sorvete, que venderam mais de oito milhões de unidades.

Nascido no sertão do Ceará, aos 11 anos, Aldemir vai para Fortaleza cursar o Colégio Militar, onde permanece durante 5 anos; torna-se monitor de desenho e, no exército, onde permanece até 1945, vira Cabo-Pintor. Em 1944, junto com nomes incipientes das artes plásticas, tais como Mário Barata, Barbosa Leite, Carmélio Cruz, Inimá de Paula, Jean-Pierre Chabloz e João Maria Siqueira, entre outros, funda a Sociedade Cearense de Artes Plásticas, responsável pela renovação artística no estado. Neste período faz ilustrações para jornais e livros, conferindo um caráter gráfico marcante à sua obra posterior.

Em 1945, Aldemir Martins vem para o Rio de Janeiro e participa do Salão Nacional de Belas Artes; logo depois radica-se em São Paulo e realiza sua primeira individual, no Instituto dos Arquitetos do Brasil. Em 49, Aldemir é convidado a participar da exposição 19 Pintores, de onde sai com o 3o. Prêmio. Em 49 faz um curso de História da Arte com Pietro Maria Bardi, para ser monitor do MASP, e lá mesmo passa a cursar gravura em metal com Poty, a quem substituirá posteriormente. Participa e recebe prêmios na I, II, III e IV Bienais de São Paulo; é em 56, no entanto, que recebe a distinção mais importante de sua carreira - o Prêmio Internacional de Desenho da Bienal de Veneza, com a obra Pássaro Olé.

Em 1959 Aldemir parte para uma viagem à Europa graças ao Prêmio Viagem ao exterior que recebe no Salão Nacional de Arte Moderna; neste período, sua obra começa as sofrer uma sensível transformação temática e expressiva. Os temas inspirados na mítica nordestina - cangaceiros, rendeiras, sempre com um ar áspero, demonstrando a dureza da vida no sertão - dão lugar aos animais, em especial aos gatos, aos nus e às marinhas; as cores ainda são cruas e chapadas, mas a expressão da linha passa a ser mais estilizada. O contato com a Europa faz com que Aldemir rompa um pouco com o rigor geométrico e comece a experimentar com as cores, chegando a ser considerado tachista - tudo isso sem jamais abandonar o figurativismo. A partir de 80 os temas passam a ser mais universais, menos nordestinos - flores, frutas e mulheres. As cores são mais fortes, mais alegres, mas sempre em grandes ‘chapadas’.

A arte de Aldemir Martins é extremamente nacional; a falta de uma formação acadêmica fez com que ele desenvolvesse um estilo único e de interpretação popular - e talvez foi isto que o tornou um artista de grande aceitação. A grande circulação de sua obra em produtos industrializados rendeu ao artista a acusação de ser ‘comercial’ - mas, assim, ao menos ele está contribuindo para a democratização da arte, mesmo que não seja esta a sua intenção.

Cassandra de Castro Assis Gonçalves
[bolsista IC-FAPESP]

Profa. Dra. Daisy Peccinini de Alvarado
[orientadora MAC-USP]


(Ingazeiras, CE, 08/11/1922)