"Éramos meia dúzia de amigos cujo traço comum era não gostar dos acadêmicos e querer a pintura verdadeira, que não fosse anedótica ou narrativa, a pintura pela pintura."
Francisco Rebolo Gonsales - depoimento - 1945

Um dos mais importantes agrupamentos de artistas da Modernidade Paulista, articulou-se a partir de 1935 no Palacete Santa Helena, na Praça da Sé nº 13, junto ao Marco Zero da Cidade. Uma pequena comunidade de pintores aos poucos se foi formando, Francisco Rebolo Gonsales foi o primeiro a chegar na sala 231, instalando seu escritório de pintura e ornato de residências, em 1934. Empreiteiro e decorador também, Mário Zanini veio ali se fixar no ano seguinte, 1935, na sala ao lado, 232, ligada à primeira por uma porta interna.

Paulatinamente o grupo cresce. Em 1935 ainda; Manoel Martins dividiu a sala com Zanini, enquanto que Fúlvio Pennacchi em 1936 reuniu-se a Rebolo Gonsales. Aldo Bonadei passou a ajudar no aluguel da sala de Zanini por um curto tempo, logo depois organizou o ateliê de sua casa. Com Rebolo Gonsales e Pennacchi une-se Humberto Rosa; enquanto que com a saída de Bonadei, Clóvis Graciano e Alfredo Volpi passam a usar a Sala de Mario Zanini e finalmente em 1937, o último artista vem se integrar ao Grupo, Alfredo Rullo Rizzotti.

Apesar da movimentação destes artistas ocupando e deixando os ateliês-escritórios, configurou-se nestes espaços do Palacete Santa Helena, uma oficina comum ao final da década de 30, a partir dos quatro elementos iniciais Francisco Rebollo Gonsales, Mário Zanini, Fúlvio Pennacchi, Manoel Martins. Não houve a quebra dos relacionamentos, estes motivados pelo anseio comum, que era o domínio do metier da pintura; tinham as sessões em conjunto de desenho de modelo vivo à noite e as saídas nos fins-de-semana - Mogi das Cruzes, S.Caetano, Santos e Itanhaém. Ainda, as exposições coletivas da Família Artística Paulista em que compareciam em peso. Os Santahelenistas, uma confraria de artistas, traziam uma alternativa diferente para os rumos da pintura após Semana de 22. De origem social modesta, imigrantes ou filhos de imigrantes italianos, em sua maioria e pequena burguesia, tinham um segundo emprego para sobreviver. Eram pintores decoradores, Rebolo, Volpi e Zanini; Graciano era letrista, fazendo a pintura de tabuletas e cartazes; Pennacchi, dono de açougue, decorador projetista e professor de Desenho do Colégio Dante Alighieri; Rizzotti, alfaiate e torneiro; Bonadei, costureiro e bordador. Manoel Martins - vendedor, relojoeiro e guarda-livros e Humberto Rosa, professor de Desenho Geométrico em colégios particulares. (Dante Alighieri, Bandeirantes e Sion).

Na maioria auto-didatas, com exceção de Bonadei e Pennacchi, que estudaram Belas Artes na Itália, estes pintores por sua escendência ou origem italiana, recebem uma forte influência da arte do novecento - os valores plásticos e o retorno à ordem - que significava orientar-se a partir da grande tradição da pintura italiana de Giotto aos contemporâneos dos anos 30. Recebiam forte estímulo e alento pela relação de mestre e amigo com o pintor Paulo Rossi Osir. Por outro lado não foi de pequena importância a atuação de Paulo Mendes de Almeida, cujo aconselhamento filtram o Modernismo de Cèzane bem como o retorno à ordem da Escola de Paris. O debruçar-se na pintura como exercício de um ofício, os artistas-artesãos, como dizia Mário de Andrade, contribuem para um projeto moderno dedicado ao honesto, humilde proceder do metier trazendo para o campo da pintura visualidades novas locais, temas populares e paisagens urbanas, suburbanas, rurais, cenas de gênero e marinhas. Mais que registro são estas pinturas nas tonalidades marrons, cinzas foscos a manifestação de uma sensibilidade nova que Mario de Andrade atribuia a um refinamento de espírito.


Profª Drª Daisy Peccinini
(responsável pelo projeto)

De cima para baixo: Paisagens com Figuras, 1942 , Rebolo Gonçalves, Col. MAC-USP; Praça da Sé, 1940, Manuel Martins, Col. Part.; Paisagem de Mogi das Cruzes, 1930, Alfredo Volpi, Col. MAC-USP; Paisagem, 1943, Aldo Bonadei, Col. Part.; Homens e Fios Elétricos, 1946, Clóvis Graciano, Col. MAC-USP