Praça da Sé, 1940, Col. Part.

Ilustrador da vida urbana, Manoel Martins mistura as observações da cidade em crescimento com as lembranças dos tempos pacatos. Um dos integrantes do Grupo Santa Helena, registra a São Paulo dos anos 30 e 40, envolta em elementos interioranos, típicos da infância vivida no subúrbio. Pintando de forma poética, o estreito limite entre fantasia e realidade faz com que sua obra não seja um simples retrato urbano, mas sim a interpretação do artista sobre o ambiente desumanizador que se expande a sua volta.

Filho de imigrantes portugueses, cresce nas vilas operárias do Brás, bairro industrial paulistano. Seu primeiro ofício, exercido em uma ourivesaria, a partir de 1924, rende-lhe, mais tarde, o domínio da técnica da gravura. Os primeiros estudos artísticos são realizados com o escultor Vicente Laroca, em 1931, quem lhe aconselha a freqüentar a Escola de Belas Artes. Neste ambiente, conhece Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Fulvio Pennachi e Mario Zanini, sendo que com este último passa a dividir o ateliê, no Palacete Santa Helena. Formava-se, então, no ano de 1935, a confraria dos artistas do Santa Helena. Assim como os demais integrantes, Martins exerce atividades além da pintura para subsistência, como o trabalho em uma relojoaria e no comércio, entre outras; ofícios que o aproximaram da vida proletária paulistana.

Durante as participações nas três mostras da Família Artística Paulista (1937, 1939 e 1940), Martins é tido como pintor social. Afeito às temáticas do trabalhador - a vida proletária e os momentos de lazer -, se destaca pelo olhar distante, mas perspicaz. Seus registros do centro velho e do subúrbio, que costumava a freqüentar aos domingos, atentam para o homem anônimo, pequeno diante das construções e dos componentes da paisagem urbana. Da mesma forma como ilustra grandes romances da literatura brasileira, como "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo, e "Bahia de todos os Santos", de Jorge Amado, ilustra as cenas da cidade com os olhos de um repórter; característica que aproxima suas telas das projeções do cinema expressionista exibido na mesma época.

Com seu gênio calmo e intimista, Martins é interpretado muitas vezes como ingênuo e primitivista. Carlos Scliar, em 1942, declarou: "Manoel Martins é sem dúvida um dos temperamentos mais estranhos da pintura moderna brasileira. Por não poder compará-lo a quem quer que seja, chamam-no ingênuo." Mas, o que os olhos do pintor captam e expressam é o momento de transformação social e urbana intensa dos anos 30 e 40, tentando representar com seus pincéis o ritmo efêmero de crescimento que se impõe aos habitantes da cidade. Pouco ainda resta da São Paulo pacata, das brincadeiras das crianças, da aparência de vila. Surge, no entanto, uma nova paisagem, onde tudo e todos parecem sempre estar em constante movimento.


Carolina Amaral de Aguiar
(Bolsista IC - FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini
(responsável pelo projeto)
Sem Título, 1945