"... uma coisa que vai alegrar você - a quase realização daquela nossa velha idéia -lembra-se? - de um centro de arte moderna juntamente com Dona Olívia Guedes Penteado e com outras algumas senhoras da nossa melhor sociedade, estou tratando de dar a essa idéia uma forma palpável, útil. Creio que faremos, para principiar, uma espécie de club que se chamará "Sala Moderna", na qual exporemos quadros, estátuas, livros etc e faremos ouvir musicistas, escritores etc, exclusivamente modernos, nacionais e estrangeiros. A "Sala Moderna" terá um número limitado de sócios e, mantendo um chá ("tea room") anexo atrairá, com isso, a visita da sociedade -o que será para os artistas de grande utilidade prática..."
Carta de Mário de Andrade a Lasar Segall,
9 de fevereiro de 1931

Concomitante ao CAM, precisamente no dia 23 de novembro de 1932, na casa do arquiteto Gregori Warchavchik, foi fundada a Sociedade Pró-Arte Moderna, a SPAM. As artes plásticas estavam representadas por velhos conhecidos no cenário artístico brasileiro como Lasar Segall, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Antônio Gomide, John Graz... Além destes, outros artistas, que passam a configurar efetivamente na modernidade paulistana a partir da década de 30, tiveram a SPAM como um trampolim. Entre eles estão Hugo Adami, Paulo Rossi Osir e Vittorio Gobbis, que chegavam ao Brasil fortemente marcados pela experiência estética européia.

Logo após a fundação, já no mês de dezembro, foi votado um estatuto e eleita uma diretoria. A lista de sócios, composta por uma elite financeira, mas que também se pretendia elite intelectual, foi hierarquizada em três classes: "Categoria A - Fundadores", "Categoria B - Artistas e Literatos" e "Categoria C - Amigos da Arte".

O programa discutido era vasto e ambicioso; previa desde salão de festas até sala de leitura, o que tornava premente a necessidade de uma sede social. Durante quase um ano esse foi um obstáculo contornado graças à excelente situação financeira da maioria dos membros da sociedade, que cediam seus prédios e salões, às vezes as próprias casas, para as atividades artísticas ou boêmias programadas pelo grupo. Nestas condições realizou-se a 1ª Exposição de Arte Moderna da SPAM, o baile de Reveillon de 1933, denominado "São Silvestre em farrapos", e o famoso "Carnaval na Cidade de SPAM". Os lucros deste último possibilitaram o aluguel de metade do 5º andar do Palacete Campinas, localizado na Praça da República nº 44, onde após uma reforma, inaugurou-se a ambicionada sede, com festa em 16 de agosto de 1933. Ali, além dos salões para as apresentações de música ou conferências, havia também ateliê com modelo vivo, biblioteca e bar.

No ano seguinte, a SPAM realiza outro importante baile de Carnaval, denominado "Expedição às matas virgens da Spamolândia". Assim como a grande maioria das atividades da SPAM, Lasar Segall era a alma do projeto. Estava presente naquele momento, uma grande preocupação com a linguagem estética, em detrimento de um conteúdo político ou engajado. Este é o conteúdo que estava presente no CAM e foi o ponto principal de divergência entre as duas agremiações. A SPAM era e falava para a "melhor sociedade", conforme atestam os convites de suas reuniões e "cocktails"; sua existência contribuiu com o forjar de uma elite formadora de opinião ou de "gostos". Dentre seus associados, não raro emergiram personagens, ou funcionários públicos, da vida cultural paulistana ou nacional, dentre eles, Mário de Andrade, Sérgio Milliet, Menotti Del Picchia, Reynaldo Porchat...

Após este que foi o último Carnaval da SPAM, o Diário Popular publicou um artigo de José Bonifácio de Souza Amaral, intitulado Os fins secretos da Spamolândia, no qual afirmava que a SPAM, composta por "neobrasileiros e estrangeiros de nacionalidade incerta desafetados de nossas tradições", pretendia dissolver a moral e os bons costumes. Enfim, as dificuldades financeiras, os desentendimentos entre os associados - que culmina com Segall se demitindo da diretoria -, a morte de D. Olívia Guedes Penteado e o bombardeio da imprensa, tornaram a SPAM por demasiado fraca. Foi eleita ainda uma nova diretoria, em 25 de novembro, mas a sociedade não tinha mais fôlego; declarou-se extinta em dezembro de 1934.

Vanessa Machado
(bolsista IC-FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)