Série
Trágica
1947
grafite sobre papel, 69,4 x 50,4 cm
Doação -MAM SP
Neste célebre trabalho, Flávio despoja-se de quaisquer
tabus e pudores sociais e dirige-se, no ímpeto de artista
e pensador que era da existência humana, ao leito de Dona
Ophelia Crissiuma de Carvalho, sua mãe, e ali registra os
instantes agonizantes de sua vida.
Composta por 9 desenhos, a série possui o ritmo macabro das
contorções e sufocamentos das mortes não instantâneas.
Cada desenho, um instante, um (des)velamento do morrer e da figura
materna. A cada instante, assim como a vida que se esvai, o traço
do artista vai tornando-se cada vez mais leve e frágil; abaixo,
a mórbida insígnia: minha mãe morrendo.
Inédita na proposta, exposta pela primeira vez no MASP em
1948, a série foi alardeada pela imprensa e execrada pela
sociedade. Flávio novamente mexera com os brios do politicamente
correto da provinciana São Paulo.
(...)
Que sombra é essa aí, sozinha assim
Na barcaça adernada sobre a estige?
Relevo fóssil de ave diluviana?
Tronco lacustre? Túrgida raiz?
Mendiga trôpega de galiléias?
Cassandra? Nausicaa? Ou talvez Cornélia?
Múmia de lava? Estátua de basalto?
Monja setuagenária do deserto?
(...)
Dá-me essa treva grossa em que acamas,
Toda a textura desses tegumentos
Que preservam teus punhos e teu queixo
Dá-me todas as riscas sobrepostas
Nas pálpebras, nos beiços, nas falanges,
Nos cabelos, na testa, no pescoço,
No travesseiro, no lençol, no quarto.
Poema de José Geraldo Vieira (excertos), 1948
In: PIRES, Mário. Flávio de Carvalho: uma vida fascinante.
Campinas: Ativa, 1978.
Vanessa S. Machado
(bolsista IC / FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini
(coordenadora do projeto)
Retrato
de José Lins do Rêgo
1948
óleo sobre tela, 81.0 X 65.0 cm
Doação MAM/SP
Segundo Flávio de Carvalho, fazer pintura é
lidar com cores, não é fugir da cor. Dentro
desta perspectiva, faz emergir de um laranja e amarelo, vibrantes
e empastados, as mãos do escritor que, em Menino de Engenho
-1932, Fogo Morto -1943 (entre outros escritos) denunciou a decadência
e a miséria da sociedade patriarcal do sertão nordestino.
A figura, cuja forma se projeta pela cor e não pelo desenho
e que em determinados momentos se confunde com as manchas coloridas
que compõem o fundo, carrega o expressionismo das pinceladas
nervosas. Estes fatores convergem num ponto crucial da obra retratista
de Flávio de Carvalho: a captação da psicologia
do retratado. Para este artista, é ponto básico no
retrato a compreensão da personalidade humana obtida
pela colocação em evidência das possibilidades
dramáticas e líricas do personagem.
A grande força desta obra está na forma como José
Lins do Rêgo é colocado da tela. O jogo das cores fazem-no
emergir da tinta, numa movimentação quase fugidia,
e a disposição de seu olhar enviesado conferem a imponência
e dignidade que certamente o pintor quis auferir deste grande literato
da segunda geração modernista.
Vanessa Machado
(bolsista IC - FAPESP)
Profa. Dra. Daisy Peccinini
(coordenadora do projeto) |
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