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Auto-retrato., 1965. Óleo sobre tela, 90,5 x 66,8 cm. Coleção MAM-SP.

Foto de Flávio de Carvalho, c. 1940. In: OSORIO, Luis Camillo. Flávio de Carvalho. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2000, p. 2.

Flávio de Carvalho

Amparo de Barra Mansa, RJ, 1899
Valinhos, SP, 1973

"O que é bom para os outros não é para mim."
Flávio de Carvalho

Flávio de Rezende Carvalho foi um dos nomes que, durante os anos 30, não deixou a peteca da Semana de 22 cair. Arquiteto, engenheiro, cenógrafo, artista plástico, desenhista, antropólogo amador, antropófago... desenvolvia em seus projetos um casamento perfeito entre sensibilidade e racionalidade, arte e ciência, imaginação e realidade. Foi uma vanguarda em pessoa, seja ao lado de Oswald de Andrade no teatro - Teatro de Experiência, seja caminhando junto a Gregori Warchavchik na introdução da Arquitetura Moderna no país, ou com Osório César, apoiando a arte dos loucos já nesses tempos, ou ainda realizando suas famigeradas Experiências. Flávio esteve sempre na linha de frente de um combate iconoclasta que travou durante toda a sua vida. “A arte que interessa é aquela que procura destruir uma suposta verdade”, definiu certa vez sua postura.

De família aristocrática, viveu entre 1911 e 1922 na Inglaterra, onde se formou em Engenharia Civil, enquanto estudava artes plásticas em um curso noturno da ultra conservadora King Edward Seventh School of Fine Arts. Foi como freqüentador de museus que teve seus primeiros contatos com os vanguardistas europeus. Retornou ao Brasil e não conseguiu se adequar ao emprego nos cobiçados escritórios Ramos de Azevedo. Em 1926 foi trabalhar no Diário da Noite como ilustrador e conheceu o caricaturista do jornal, Di Cavalcanti, que o apresentou ao grupo antropofágico de Oswald e Tarsila, cujos valores lhe influenciariam profundamente. Em seguida, instalou no Instituto de Engenharia um escritório, que lhe valeu também como residência e ateliê.

A década de 30 é inaugurada pela Revolução e o clima eminentemente político que agrega as temáticas dos artistas paulistas parece não se despertar em Flávio. Agora e sempre, sua dedicação é quase que exclusiva ao nu feminino -de um exacerbado erotismo, e ao retrato -baseado na apreensão da psicologia do modelo. Só que é justamente nesta baliza que se emaranharou seu pensamento contestatório.

Apresentou seu trabalho pela primeira vez em 1931, no Salão Revolucionário da Escola de Belas Artes, ao lado de pintores como Portinari, Lasar Segall, Cícero Dias, entre outros. Expôs Anteprojeto para Miss Brasil e Pensando, ambas de 1931. Nestes dois trabalhos, as mulheres são captadas pelo artista através de pinceladas densas e desveladas em formas sensuais. Elas são devolvidas ao espectador ameaçadoramente, seja com o olho esquerdo arregalado de uma Miss Brasil negra, seja no ato do “pensar”, premissa de qualquer manifestação de rebeldia. E esses são tempos em que a mulher tampouco tem direito ao voto.

Em 1932, lutou a favor da Constituição na Revolução Paulista. Ainda neste ano, ao lado de Antônio Gomide, Di Cavalcanti e Carlos Prado fundou o Clube dos Artistas Modernos. Após o fechamento do CAM em 1934, expôs individualmente pela primeira vez. Interditada pela polícia, a mostra só pode prosseguir após interferência judicial. Há muito seu nome freqüentava a imprensa e era sinônimo de confusão. “Herético” era um dos adjetivos mais suaves que a sociedade lhe inculcava. Por isso, quando o amigo Quirino da Silva idealizou os Salões de Maio, preferiu ficar nos bastidores da organização, a fim de não prejudicar com sua “fama” a empreitada. Assim o foi no 1 º (1937) e no 2 º Salão de Maio (1938). Outras circunstâncias fizeram-no organizar sozinho o 3 º Salão de Maio (1939).

Em 1947 desenhou a polêmica Série Trágica ou Minha Mãe Morrendo, que lhe rendeu mais uma alcunha, a de “pintor maldito”. Em 1950 representou o Brasil na Bienal de Veneza. Em 1953, elaborou os figurinos e o cenário para o bailado A Cangaceira, de Camargo Guarnieri. Participou ainda de diversas Bienais de São Paulo, sendo homenageado com sala especial em 1983.

Sua pintura, desenho e escultura de maior qualidade estão permeadas pelas propostas surrealistas e expressionistas, que ganham vida no que ele próprio chamou de “linhas de força psicológicas”. Mas enquanto artista pleno que era, passou praticamente por todas as vanguardas (arquitetura futurista, teatro dadaísta...) e ainda antecipou outras formas de expressão, como por exemplo suas performances -as Experiências.

Assumidamente inspirado em Nietzche e Freud, visava à evolução do homem, que só aconteceria após a superação dos valores ocidentais, morais e religiosos. Seus estudos transdisciplinares ignoravam a lógica da fragmentação dos saberes. A sociedade de seu tempo não conseguiu entender a proposta e decodificou o fenômeno da genialidade como loucura.

Um dos titãs da nossa Modernidade, foi também uma ponte para as práticas libertárias da arte brasileira na década de 50. Morreu em 1973. “Fica-nos para sempre mais um gigante. Flávio Leonardo Cocteau Schoffer Apolinaire Quant de Carvalho -tataraneto pré-hippie da Rainha Santa”.

Vanessa S. Machado
(bolsista IC / FAPESP)
Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)



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