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Foto do Viaduto e Largo Santa Efigênia, década de 30, s/ crédito. In: Cadernos da Cidade de São Paulo. São Paulo: Itaú Cultural, p. 5.


Foto de Artistas no CAM: Camargo Guarnieri, Carminha de Almeida, Anita Malfatti, Elsie Houston, Quirino da Silva. S/ créditos. São Paulo, 1933. In: TOLEDO, J. Flávio de Carvalho: o comedor de emoções. São Paulo: Brasiliense; Campinas: Ed. da UNICAMP, 1994.


Tarsila proferindo palestra no CAM.

CAM

"O aspecto napolitano da R. Anhangabaú, entre frutas, imprecações sírias, fileiras de salames, casas suspeitas, molecada suja, pelotões de guarda que entravam e saíam (da guarda civil, que ficava nos fundos) e as sombras dos tabuleiros e treliças do viaduto, que tornavam o ambiente acolhedor e irresponsável".
Flávio de Carvalho

Se os debates artístisco-intelectuais fossem um campo de guerra, seria do lado esquerdo do "front" que o CAM, à sua maneira, iria defender a subversão da (des)ordem estabelecida. Nos círculos culturais paulistas, há muito já se discutia a formação de uma sociedade artística. Nasceu assim, da cisão de uma parcela dos participantes destas discussões, o CAM, um dia depois da SPAM.

Foi lá nos baixos do Viaduto Sta. Efigênia , na R. Pedro Lessa n º 2, que floresceu o Clube dos Artistas Modernos. Antônio Gomide, Carlos Prado, Emiliano Di Cavalcanti e Flávio de Carvalho já dividiam, com seus ateliês, o 1 º andar daquele prédio, cujo restante estava desocupado. O clube então é oficialmente fundado em 24 de novembro de 1932 e Flávio de Carvalho, o grande sonhador, a grande figura do projeto, é sagrado presidente, numa cerimônia "à la loca", conforme testemunharia Paulo Mendes de Almeida, regada a vinho, vodca e com ilustres presenças do meio artístico. Alguns dias depois em assembléia oficial, elegeu-se uma diretoria.

Apesar de as primeiras semanas serem de caráter essencialmente artístico e "dionisíaco", permeadas por coloridos e concorridos bailes (de reveillon, carnaval) -o que rendeu uma denúncia de "alienação" (carta aberta) em jornal partida de um dos membros do clube, o CAM acabou por endireitar-se na preocupação de questões diversas, intelectuais e de infra-estrutura, necessárias para o desenvolvimento do amálgama arte, indivíduo e sociedade.

Da pequena biblioteca, com publicações nacionais e estrangeiras doadas, ao bar e restaurante, comandados por Pasha Abranova -que também era modelo vivo nas sessões de pintura, instalara-se o pandemônio que tiraria o sono de uma elite paulista, vigilante, refratária e de mente avessa às mudanças. Um razoável salão servia de espaço para conferências, exposições, concertos, recitais e tudo mais que a criatividade dos membros do grupo deliberasse.

Enquanto durou, em seu idealismo cultural, o CAM foi reduto de experimentações e de interpenetrações dos saberes. Em sua programação pode-se encontrar desde uma exposição de arte marxista, como a da artista gráfica alemã Käthe Kollwitz -cortejada por palestra de Mário Pedrosa, até uma de tema psicanalista, como "Arte dos Loucos e Crianças". Realizaram-se também apresentações de danças, que podiam ser bailados japoneses ou danças religiosas primitivas. Em música, acolhia desde a erudição moderna de um Camargo Guarnieri, até a popularidade inscrita na interpretação de uma samba como o Favela, de Joracy Camargo e Heckel Tavares. Palestraram por lá, dentre tantos nomes, figuras como Caio Prado Jr., Jorge Amado, Osório César, Tarsila do Amaral, David Alfaros Siqueiros -um dos principais muralistas mexicanos. A maior parte dos eventos culminava em festa e embriaguez.

O clube chegou a agregar cerca de 200 associados. Aquele ambiente "acolhedor e irresponsável", desde o princípio pretendeu-se democrático -convidando inclusive artistas que não tinham como pagar a mensalidade a participar sem custo. Mas as dificuldades financeiras logo se fizeram prementes e algumas atividades para captação de recursos fizeram-se necessárias. Por exemplo, um curso de pintura cubista, a ser ministrado por Antônio Gomide, custaria 40.000 réis para sócios e 60.000 réis para não sócios.

Em novembro de 1933, no andar térreo do edifício, é inaugurado o polêmico Teatro de Experiência, com encenação do Bailado do Deus Morto, peça de autoria do próprio Flávio de Carvalho. O Bailado mostrou definitivamente para a São Paulo dos anos 30, que a onda revolucionária camista não era inofensiva. Resultado: a peça é encenada não mais do que três vezes; a polícia encerrou a experiência e passou a controlar as atividades do clube. A imprensa acompanhou tudo com o habitual tom de alarde. Sem dinheiro, literalmente vigiado e mal quisto, só restava aos poucos membros que ainda resistiam, no início de 1934, decidirem pelo fechamento das portas. Porém Flávio de Carvalho, a alma do CAM, quem conseguiria encerrar? O "revolucionário romântico", conforme definira-o Le Corbusier, ainda abalaria e muito os alicerces da cidade.

O CAM foi vanguarda, uma vanguarda positivamente nacional, na história da mentalidade paulista. Seu caminho foi traçado na contra-corrente e determinado pela inovação. Toda sua programação convergia numa coerência; valorizava-se a arte moderna e execrava-se os tabus da sociedade. "O que é necessário é que o público não tenha medo do CAM. Lá não há perigo não. Tudo é bom e à vontade" (Flávio de Carvalho).

Vanessa S. Machado
(bolsista IC - FAPESP)
Profa. Dra. Daisy V. M. Peccinini de Alvarado
(coordenadora do projeto)

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Mapeamento do eixo de SP Di Cavalcanti Antônio Gomide [em Modernismo Brasileiro] Flávio de Carvalho Carlos Prado