| |
Obra em contexto
MÔNICA NADOR |
PIERRE SOULAGES |
Sem Título, 1985
acrílica s/ tela,
109 x 435 cm

Composição, 1959
oleo s/ tela,
129,5 x 88.6 cm
Disciplinando Soulages
Faz alguns anos (final dos anos 80), quando começava a me interessar pela produção de Mônica Nador, ocorreu-me escrever um texto sobre a artista intitulado "Disciplinando Soulages". Até pouco tempo ainda existia um esboço deste texto que, por nunca ter sido finalizado, anda sumido...
Agora, com a oportunidade de participar do projeto do MAC USP "Obra em Contexto", ocorreu-me novamente a possibilidade de escrever sobre o trabalho inicial de Nador em relação àquele de Soulages, uma vez que ambos estão muito bem representados no acervo da Instituição.
Por que, nos idos de 87, 88, a obra de Mônica Nador "disciplinava" aquela do artista francês? Creio que, na minha consciência, o que me impressionava na produção da artista brasileira daquele momento era sua atitude contrária a um certo tipo de produção pictórica que investia na valorização da atitude heróica e desbravadora do artista, capaz de fazer surgir um universo de possibilidades estéticas e artísticas com um simples gesto sobre o suporte da pintura, tipificada em São Paulo por este óleo de Soulages do MAC USP - uma vez que em nossos acervos públicos não possuíamos, e talvez continuemos sem possuí-los, os expressionistas abstratos norte-americanos.
Nador "disciplinava" essa atitude representada em São Paulo pelo soberbo Soulages do MAC USP, porque, com certeza, superava o suposto heroísmo romântico e autoral do artista francês, substituindo-o pela ação contínua do preenchimento do campo pictórico por meio de pinceladas sucessivas, sem nenhuma grandiloqüência, investindo apenas numa ação de caráter obsessivo, quase mecânico, e completamente anônimo.
Hoje em dia, é bastante perceptível que, na verdade, Pierre Soulages já era extremamente disciplinado , muito embora sua disciplina fosse de uma outra ordem. Observando Composição , importantíssima pintura dentro da obra do artista quanto na coleção do Museu, conclui-se que, por trás daquela aparente liberdade gestual do artista, eterniza-se a consciência e o respeito aos limites impostos pela tradição do quadro (e não da pintura) e o respeito à relação figura-fundo que, por séculos, marcou a pintura.
Mônica Nador, ao romper com o caráter ortogonal do suporte, ao alterar irremediavelmente a relação figura-fundo visível ainda em Soulages e, finalmente, ao romper com qualquer gesto autoral, como que denuncia para o "expressionismo" supostamente voluntarioso de Soulages, a realidade de uma pintura pautada na concreção bruta e material dessa modalidade artística - e a artista produz essa denúncia valendo-se dos mesmos elementos do artista francês: o suporte plano, a tinta e o "gesto".
Porém - e é preciso que se diga -, Nador, naquela época, embora pudesse estar dialogando indiretamente com aquela referida tradição pictórica representada em São Paulo pela pintura de Soulages presente no acervo do MAC USP, de maneira direta a artista estabelecia um verdadeiro embate com seus companheiros de geração, esses sim diretos continuadores de uma postura supostamente heróica do artista frente à pintura e à arte.
Como é possível recordar, os anos 80 foram marcados por uma "volta à pintura" que tendia a fazer tábula-rasa de várias conquistas de uma certa pintura moderna (voltada para suas especificidades), em prol de uma produção conectada com um "prazer de pintar" recuperador, inclusive, de uma figuração que - embora não fosse propriamente "realista" - reivindicava com alívio formas análogas ao real, mescladas a uma gestualidade "espontânea" e, portanto, autoral.
Como é possível recordar, os anos 80 foram marcados por uma "volta à pintura" que tendia a fazer tábula-rasa de várias conquistas de uma certa pintura moderna (voltada para suas especificidades), em prol de uma produção conectada com um "prazer de pintar" recuperador, inclusive, de uma figuração que - embora não fosse propriamente "realista" - reivindicava com alívio formas análogas ao real, mescladas a uma gestualidade "espontânea" e, portanto, autoral.
"Disciplinando" Soulages e a tradição que essa obra do artista francês representava e ainda representa, Mônica Nador ainda chama a atenção para uma outra possibilidade de se encarar a pintura: a pintura não como fruto de uma inspiração quase divina do artista, mas como produto de um trabalho consciente dos limites e falácias de sua própria tradição.
Tadeu Chiarelli
Obras em contexto
| |
 |