Obras em contexto
PAUL KLEE


A SANTA DA LUZ INTERIOR, 1921
litografia s/ papel
38,9 x 26,7 cm

Na Alemanha pós-weimariana não adiantava ao pintor ser neutro politicamente. 0 Estado nazista (-) não reconhece neutralidade em nada. Muito menos em arte. Um quadro cubista ou expressionista parece insólito ao espírito totalitário do burocrata. Instintivamente ele divisa ali um desafio à nova ou à velha ordem" (Mário Pedrosa).

A "Arte Degenerada" de Paul Klee

Estamos em 19 de julho de 1937. 0 Partido Nacional Socialista alemão inaugura em Munique uma grande exposição de arte moderna com cerca de 650 obras, dentre pinturas, esculturas e gravuras, confiscadas dos principais museus do país. 0 nome da exposição "Arte Degenerada". 0 seu objetivo- apresentar ao povo alemão exemplos de manifestações artísticas condenadas pelo regime nazista.

Marc Chagall, Otto Dix, Max Ernst, George Grosz, Wassily Kandinsky, Ludvvig Kirchner, Paul Klee, Jean Metzinger, Moholy-Nagy, Piet Mondrian, Karl Schmidt Rottluff, Kurt Schwitters e Lasar Segall , estavam entre os 112 artistas que tiveram obras selecionadas para a mostra. A "Arte Degenerada" foi montada para ser facilmente assimilada por um público leigo, apresentando como verdade inconteste uma interpretação política tendenciosa sobre a arte moderna. As obras eram mostradas como produto de indivíduos mentalmente doentios ou ideologicamente nefastos e que por isso deveriam ser banidos da nova sociedade alemã.

É dentro desse contexto que propomos uma releitura da obra "A Santa da Luz Interior" de Paul Klee, gravura da qual o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo possui um exemplar. Essa obra, juntamente com outras 16 do mesmo artista, estiveram presentes na exposição "Arte Degenerada". O catálogo da mostra compara a gravura de Klee a um trabalho produzido por um doente mental, que também retrata uma santa, e aponta que esse último é muito mais compreensível e humano que o do artista.Se hoje "A Santa da Luz Interior" pode nos parecer por demais singela, é porque já estamos há muito afastados do contexto de sua produção e das questões mais amplas às quais ela se filiou em seu tempo.

Reprodução FAC-SÍMILE da página do catálogo da exposição "Arte Degenerada", em que aparece a gravura de Paul Klee pertencente ao acervo do MAC USP

Observa-la, no entanto, à luz do papel subversor que lhe foi atestado pelo regime nazista é situá-la para além do puro domínio da estética. Š devolver-lhe a dimensão humana, política e histórica inerente a toda obra de arte.

Helouise Costa


Vista parcial da sala em que foi exposta "A Santa da luz interior" de Paul Klee na exposição "Arte Degenerada".

"Em torno de nós vê-se o monstruoso fruto da insanidade, imprudência inépcia e completa degeneração. O que essa exposição oferece inspira horror e aversão em todos nós." (Adolf Ziegler. Discruso de abertura da exposição "Arte Degenerada", 1937).
Vista parcial de uma das salas da exposição "Arte degenerada".


Adolf Hitler inspeciona a exposição "Arte Degenerada" na véspera de sua inauguração

"De agora em diante nós iremos empreender uma guerra implacável contra os últimos remanescentes da desintegração cultural (...). Por tudo que nós apreciamos, esses bárbaros pré-históricos da Idade da Pedra podem retornar às cavernas de seus ancestrais e lá realizar os seus rabiscos primitivos internacionais." (Adolf Hitler, Discurso acerca da Arte Moderna, 1937).


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