DAS MUDANÇAS DOS TEMPOS ÀS DIFERENÇAS DE TEMPOS. ARTE CONTEMPORÂNEA NA CHINA A PARTIR DE 2000
Xia Jifeng

The Literary Minds and Its Carving of Dragons , escrito por Liu Xie ( 465 Ac .-532) há mais de 1.500 anos é o primeiro estudo em teoria literária escrito China Antiga. No capítulo intitulado “Mudanças dos tempos”, o autor, ao abordar as leis que regulavam o desenvolvimento e as tendências literárias nas dez últimas dinastias anteriores à Qi, do sul, nas dinastias do sul e do norte, ao identificar os fatores que contribuíam para a evolução literária, comentou a ascensão e a queda da literatura destacando a relação causal entre essa e o contexto social no tocante à política, às atmosferas sociais, às relações humanas e à preferência estética das classes dirigentes. “Mudanças no estilo da escrita associadas às mudanças dos tempos” é um dos principais argumentos do ensaio.

A literatura ao longo de milhares de anos tem justificado o julgamento de Liu Xie segundo o qual “o estilo de escrita segue as mudanças do tempo”. Todos os altos e baixos de uma era podem influenciar sua literatura. Liu Xie se baseou na literatura provavelmente devido às suas qualidades sensíveis e transcendentais. Talvez não seja uma boa metáfora, mas eu ainda gostaria de comparar a literatura às antenas de um caracol que, macias e vulneráveis, talvez pareçam insignificantes, mas são capazes de oferecer reações até mesmo às menores mudanças. Retrair-se dentro de sua concha ou expor-se ao ar depende muito se o tempo está úmido ou seco, frio ou quente, ou até mesmo se sopra um vento forte ou uma brisa. “A história parece remota, mas as mudanças nos estilos da escrita parecem estar ainda sob nossas vistas”. A literatura sempre foi considerada um ramo importante da arte e, portanto, a longa distância no tempo não será uma barreira à nossa compreensão se transplantarmos essa importante teoria para o tempo presente no sentido de facilitar nossas reflexões acerca do desenvolvimento da arte contemporânea na China.

A importância milenar da arte tradicional chinesa pode reduzir à insignificância a arte contemporânea do país, com uma história de apenas 30 anos. Por outro lado, a maioria de suas características surge a partir de referências ocidentais, o que sem dúvida desperta sentimentos conflitantes – o que nos torna menos confiantes quando traçamos seu surgimento, fato que não ocorre quando escrevemos sobre o início da arte tradicional do país.

TRÊS DÉCADAS NA MUDANÇA DOS TEMPOS

A década de 1980 é a mais importante na evolução da arte contemporânea na China. As reformas e a política de abertura levaram a uma série de transformações nos planos político e econômico, bem como na produção artística contemporânea, passando por diferentes estágios: do nascimento ao ápice, progresso e reforma. O essencial nessa década é que desde então a arte começou a reintegrar a criação artística em si como ponto de principal interesse. Os artistas se libertaram de padrões extra-artísticos impostos até então e de outros meios de controle. Tal atitude restabeleceu para a arte seus critérios intrínsecos.

Os conceitos artísticos ocidentais, quando entraram na China por meio da política de abertura foram fervorosamente cultuados pelos jovens artistas. Até então eles nunca haviam visto tanta arte ocidental, especialmente europeia e norte-americana, jorrando e matando sua se de conhecimento. Uma arte desprovida de regras, assertiva e indiscriminada caracterizou aquela década. Movidos pela paixão pela arte e fascinados com as diversas formas e técnicas empregadas na arte ocidental para materializar a imaginação humana, esses artistas mergulharam em experimentações, ampliaram seu universo interno trazendo inovações, ou até mesmo foram a extremos, como se, por curiosidade, quisessem conhecer os limites da arte. Por outro lado, a política mundial imprevisível dos anos 1980 e a queda do muro de Berlim, que particularmente simbolizava o fim da guerra fria, influenciaram amplamente a orientação desses artistas, resultando, assim, no estilo da arte contemporânea chinesa da década, simples e livre, direta e incisiva. Suas obras eram densas, com forte sentido de missão e responsabilidade social. Sem se importarem com a ideologia socialista, eles chegaram a ironizá-la. Sentimentos individuais foram traduzidos na forma de ideias e símbolos não convencionais. Esses elementos tornaram-se traços característicos da arte nesses dez anos.

Em seguida, no entanto, as mudanças dos tempos trouxeram outra década em que o caráter direto, simples e contundente da arte dos anos de 1980 cede lugar ao estilo dos anos 1990, introspectivo e individualista. Não é possível julgar qual década foi a mais importante em termos de evolução da arte. Porém uma coisa é certa: desde o começo dos anos 1990 e, antes que pudéssemos notar, jovens artistas chineses vivenciaram grandes mudanças no que se refere à sua orientação artística e atitude em relação à arte, da mesma maneira como a sociedade chinesa testemunhou grandes transformações sociais.

Nessa época, a acelerada economia de mercado na China trouxe tremendas revoluções no sistema econômico, na estrutura social, na cultura e nos sistemas de valores, sujeitando a todos à grande pressão e tensão. Tal mudança intensificou diversos problemas, como a crise existencial, o estranhamento, a indiferença, o desespero e a alienação, forçando os artistas a deslocar sua atenção para a reflexão sobre essas novas questões sociais. Partindo de seu próprio ponto de vista ou concepção artística, eles retrataram e revelaram a realidade social que estavam enfrentando através de vários meios, de várias formas, com várias técnicas e com suas linguagens artísticas singulares e criativas.

O novo milênio trouxe à cena uma nova geração de artistas que, em sua maioria nascida nos anos de 1970, se tornou gradativamente a coluna dorsal da arte contemporânea chinesa. A favorável política de abertura e reforma, junto com a realidade social cada vez mais potente, deu o tom à orientação artística desses jovens de modo que eles não mais seguiram cegamente os influxos da arte ocidental. Em comparação com seus antecessores, eles estavam mais conscientes dos elementos que distinguiam a arte no Oriente e no Ocidente e, assim, tornavam-se mais dedicados à realidade e à tradição locais. É possível encontrar resíduos da experiência ocidental em seus trabalhos mais neles tornam-se mais visíveis os questionamentos sobre como levar adiante e responder à cultura tradicional do país. Isso ocorreu precisamente devido ao modo singular do pensar oriental, à observação e expressão que qualificam o caráter distinto da arte contemporânea chinesa no contexto da arte global, conferindo a essa amplitude e profundidade.

É necessário frisar que desde que a recessão econômica mundial se estabeleceu, a arte contemporânea chinesa reduziu em muito a reprodução e dependência de sua contraparte ocidental e gradualmente se dissociou do padrão comercial ocidentalizado. Um grupo de artistas bastante ativos entrou em cena e chamou atenção – entre eles Dong Wensheng, Gao Shiqiang, Gu Wenda, Han Lei, Hong Lei, Jiang Zhi, Jin Shi, Li Hui, Li Qing, Liang Shaoji, Liu Dahong, Liu Wei, Madeln (Xu Zhen), Ou Ning, Cao Fei , Qin Qi, Qiu Zhijie, Tu Hongtao, Wang Jianwei, Wang Yin, Yan Lei, Yin Zhaoyang, Zhou Xiaohu. Como uma nova força que não pode ser negligenciada, construiu a diversificada arte contemporânea chinesa com suas pinturas, fotografias, instalações, esculturas, vídeos e filmes, etc., abrindo novas possibilidades para um espaço de arte mais livre.

DUAS ZONAS COM DIFERENÇA DE TEMPO

Como sugerido no título do livro do estudioso norte-americano Thomas Friedman, The World Is Flat: A brief History of the Twenty-first Century , o mundo é plano em sua dimensão temporal. O autor acredita que a internet tornou o mundo plano ao apagar a diferença de tempo. Em outras palavras, a desvantagem devido às diferenças de tempo nas diversas regiões do planeta foi removida pela ciência e pela tecnologia.

De fato, a diferença de tempo, nesse caso, como regra de um jogo que Deus impõe, mas se esquece de atualizar, caiu no esquecimento. No momento em que o terrível derramamento de óleo ocorreu no Golfo do México, pessoas do outro lado do globo viram os pelicanos encharcados de óleo lutando pela vida. Por sua vez, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Beijing um chinês sentado no enorme “Ninho de Pássaro” de ferro e aço não necessariamente se antecipava em relação a alguém, nos Estados Unidos, vendo os atletas norte-americanos pisando orgulhosos no estádio.

Sob outra perspectiva, no entanto, a diferença no tempo está causando grandes complicações. Em diálogo com alguns curadores e críticos de arte europeus e norte-americanos, listamos alguns artistas europeus e norte-americanos que acreditávamos ser os mais recentes, mas soubemos que eles apesar de bastante conhecidos no século passado, atualmente perdiam a importância, dando lugar a outros. Normalmente ocorre o mesmo com curadores e críticos estrangeiros que parecem desnorteados pela geração de artistas chineses emergentes em 798. Aquelas regras impostas por Deus para o jogo de diferenças de tempo, embora tenha sido abandonada e desprezada, neste caso voltam a imperar e de maneira irônica.

Se a internet pode ser entendida como prova da falência das diferenças de tempo, no campo da arte essas mesmas diferenças, no entanto, ampliam seus aspectos criativos e complexos. Quando os trabalhos de Zhang Xiaogang, Ai Weiwei, Wang Guangyi, Fang Lijun, Yue Minjun, Cai Guoqing e muitos outros começaram a chamar a atenção na Europa e nos Estados Unidos, as mensagens transmitidas em suas obras, devido àquelas diferenças de tempo, podem ter levado à falsa impressão de que a arte contemporânea chinesa havia parado ali, que seria insuficiente e defasada. A cerimônia de abertura da nova Galeria Saatchi em Londres é um bom exemplo. Em 2008, a arte contemporânea chinesa ainda recebia o título ridículo de “A Revolução Continua”.

No Ocidente, desde a Revolução Industrial, têm sido constantes e pouco razoáveis a presunção e um complexo de superioridade em relação ao Oriente, particularmente no âmbito da literatura. Até mesmo o renomado escritor Milan Kundera uma vez afirmou orgulhosamente que o gênero romance pertence à Europa, que é uma descoberta europeia, mesmo que realizado em diferentes culturas. Certamente essa declaração pode ser aplicada à arte. A velha tradição artística ocidental, na Europa particularmente, pode ensinar muito à arte contemporânea chinesa de apenas trinta anos de existência, mas evidentemente, deve haver uma base igualitária para o intercâmbio acadêmico, ao invés de um terreno limitado e especificamente orientado.

Em outras palavras, a arte contemporânea na China não consiste de modo algum em obras de arte politicamente codificadas, e aquelas obras aceitas e amplamente divulgadas no ocidente talvez seja apenas parte da realidade da arte chinesa. Numa época em que a diferença de tempo, dissipando ideias equivocadas por meio de exposições e obras de arte, e justificando nossa realidade artística com ações ao invés de pronunciamentos vazios. Obviamente, isso não pode ser alcançado da noite para o dia visto que envolve esforços cumulativos ao longo de anos.

19 de junho de 2010.

Tradução: Eliany Cristina Ortiz Funari