Abertura: 09 NOV 2013
Entrada Gratuita

Para Além do Ponto e da Linha:
Arte Moderna e Contemporânea no Acervo do MAC USP


Como o visitante pode notar a implantação do acervo do MAC USP em sua nova sede, ainda em processo, vem se caracterizando pela apresentação de mostras de cunho monográfico (dedicadas aos artistas com significativas representações no acervo ou a partir de coleções específicas) e exposições que pontuam questões importantes para a arte atual: O Agora, o Antes , no sétimo andar, apresenta uma síntese possível do acervo da Instituição, tendo como estímulo a necessidade de posicionar o público frente a uma séria questão da arte atual e que o acervo do MAC USP enfrenta tão bem: o problemático movimento de reiteração/superação dos gêneros artísticos tradicionais dentro da arte contemporânea. Já no sexto andar, a mostra O Artista como Autor/o Artista como Editor apresenta para os visitantes outra questão crucial da arte das últimas décadas: a crescente presença de obras de arte que problematizam a visão, ainda muito poderosa, da obra de arte como formulação unitária, autônoma, e creditada apenas a um autor. A partir de obras em que o artista opera mais como um editor de formas e imagens já prontas (Nelson Leirner, Gerard Richter, Waltércio Caldas, entre outros), ocupando o mesmo espaço expositivo com obras que reivindicam uma autoria única (Iberê Camargo e Hans Hartung, entre outros), o público é colocado frente a frente ao problema da autoria na arte de hoje, podendo assim tirar suas próprias conclusões sobre o fenômeno.

Dentro dessa política de levar o público a deparar-se com problemas inerentes à arte contemporânea, o Museu apresenta no terceiro andar de sua nova sede a mostra Para Além do Ponto e da Linha: Arte Moderna e Contemporânea no Acervo do MAC USP . Reiterando, como nas mostras acima citadas, uma atitude anti-cronológica e anacrônica, esta exposição apresenta obras de artistas modernos e contemporâneos, brasileiros e internacionais que, por estratégias as mais diversas, desenvolveram ou desenvolvem trabalhos em que o foco é a ativação do plano bidimensional.

É claro que, de maneira geral, tradicionalmente os artistas sempre ativaram o plano por meio de desenhos, gravuras e pinturas (não é à toa que o “gênio tutelar” desta mostra é Wassily Kandinsky, artista presente na exposição e autor do livro Ponto e linha sobre o plano ). No entanto, o propósito desta exposição é levar o visitante a entrar em contato com um conjunto de obras que reiteram a importância da ativação do plano por meio de seus elementos mínimos – a linha, o ponto, mas também a cor e a luz –, e outros que demonstram incomodo com tal reiteração e, portanto, apresentam obras que atestam essa insatisfação com os limites do plano.

Se no primeiro caso, a mostra apresenta realizações soberbas, como as de Sophie Taeuber-Arp, Carlos Zilio, Richard Paul Lohse e Paulo Pasta, entre outros, no segundo chama a atenção de todos para as obras de artistas como Luiz Paulo Baravelli, Jean Arp, Domela e Estela Sokol, também entre outros, onde aquela insatisfação se evidencia, atingindo resultados insuspeitos mas sempre notáveis.

Esta porosa discussão sobre o plano na arte moderna e contemporânea, é permeada pela obra Zootécnico , 2009, de João Loureiro, composta por cinco elementos tridimensionais. Uma invasão da escultura e da instalação em uma mostra dedicada ao plano? Sim e não. Zootécnico é uma obra tridimensional constituída por cinco esculturas que se estruturam a partir de... planos. Planos sobrepostos que configuram, por sua vez, animais determinados em escala 1:1. Uma prova de que, na cena contemporânea, as especificidades da arte moderna definitivamente têm dificuldades para se sustentarem.

Finalizando a mostra, e imediatamente antecedida por uma pintura de Deborah Paiva (em que figuras olham para dentro do plano pictórico), a fotografia Rufo , 2003, de Caio Reisewitz, plano ativado pela luz e longe de qualquer formalismo ou de submissão à maioria dos cânones da “fotografia contemporânea”, representa um homem olhando para dentro do plano fotográfico. O que procuram no passado essas figuras, presente nas obras de Paiva e Reisewitz? Fica aqui a pergunta.

Com Para Além do Ponto e da Linha , o MAC USP, no seu processo de ocupação de sua nova sede, fecha o ciclo de exposições em que alguns dos temas mais candentes da arte atual, presentes em seu acervo, são apresentados ao público como problemas a serem discutidos, desnaturalizando, assim, as narrativas mais comuns sobre a arte moderna e contemporânea, que tendem a tornar falsamente simples o que é, de fato, muito complexo.

Tadeu Chiarelli
Curador





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