Entre Atos 1964/68 inaugura uma série de três exposições que pretende investigar a constituição do acervo do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, tendo como foco a arte brasileira produzida no contexto da ditadura militar (1964-1985). As mostras programadas cobrirão momentos distintos desse período: 1964-1968; 1969-1974 e, por fim, 1975-1985. Serão abarcadas duas décadas cruciais da história recente do país sobre as quais muito ainda há que se refletir, em especial no campo das instituições artísticas. Nosso objetivo, em sentido mais amplo, é contribuir para o mapeamento do papel desempenhado pelos museus públicos de arte sob o regime militar e para o redimensionamento do legado que deixaram, não só através das exposições realizadas, mas particularmente por meio dos acervos que puderam angariar. O MACUSP foi fundado um ano antes do Golpe de 1964 a partir do acervo anteriormente depositado no Museu de Arte Moderna de São Paulo e das coleções do casal Francisco Matarazzo Sobrinho e Yolanda Penteado, transferidos para a Universidade de São Paulo naquela ocasião. O Museu originou-se, portanto, de um conjunto do obras de arte moderna, nacional e internacional, adquirido ao longo das décadas de 1940 e 1950. Tal característica iria modificar-se rapidamente em função do projeto de gestão do primeiro diretor do Museu, Walter Zanini (1963-1978). A sua atuação resultou na transformação de um acervo inicial de arte moderna em um acervo de arte moderna e contemporânea. Nessa primeira exposição indagamos como se deu, na prática, a formação do acervo de arte contemporânea do MACUSP, que teve início justamente nos anos mais difíceis da ditadura militar. É possível identificar um perfil característico do conjunto de obras incorporado ao Museu entre o golpe militar de 1964 e o recrudescimento do regime, em 1968, por meio do Ato Institucional N. 5? Que tipo de leitura das obras de arte podemos obter ao projetarmos os marcos cronológicos da ditadura militar sobre o acervo do MACUSP? O projeto de expansão do acervo do MACUSP rumo à arte contemporânea teve como principal diretriz o entendimento do Museu como lugar de experimentação. Isso resultou em uma forte aproximação do Museu com jovens artistas. Para tanto, em seus primeiros quatro anos de existência, o MACUSP valeu-se, entre outras estratégias, do lançamento de editais de exposição que resultariam em mostras memoráveis como foi o caso das edições do Jovem Desenho Nacional e da Jovem Gravura Nacional (1963-1966). As inúmeras mostras assim realizadas possibilitaram a incorporação de um contingente expressivo de obras ao acervo do Museu, como se pode aqui verificar. Ademais as obras apresentadas apontam para as particularidades do processo de transição da arte moderna para a arte contemporânea no Brasil. No sentido de demarcar alguns indicativos dos embates estéticos do período dividimos as obras em três grandes conjuntos. Figura , gesto e plano são termos propositadamente abertos, que visam orientar o visitante sem fazê-lo incorrer, no entanto, nas classificações rígidas já consagradas pela história da arte. Isso porque colocamos em relevo uma abordagem contextual do acervo do MACUSP, isto é, consideramos a obra de arte como um documento de civilização, capaz de revelar o espírito de seu tempo. Mais do que buscarmos marcas explícitas de engajamento político nas obras, cabe-nos saber ler nas entrelinhas os indícios que trazem das relações de poder que se estabeleceram dentro e fora do circuito de arte. A sequência de exposições que aqui se inicia pretende lançar um olhar crítico sobre um acervo público, refletindo sobre o que nele se guarda como registro de nossa memória artística e cultural. Tomamos o Museu, sobretudo, como a moldura institucional que torna a arte um dispositivo de revelação e/ou ocultamento de um período turbulento da vida nacional a ser melhor investigado e conhecido.

Ana Magalhães
Cristina Freire
Helouise Costa
Divisão de Pesquisa em Arte, Teoria e Crítica